O empate contra a Austrália, decidido nos acréscimos por Rayan, acendeu um sinal de alerta para o início do ciclo 2030. A estreia do novo projeto expôs fragilidades que vão além do placar e colocam em xeque a gestão esportiva da CBF.
A estreia que expôs fragilidades táticas
A escalação inicial surpreendeu analistas: Hugo Souza no gol, Matheuzinho e Douglas Santos nas laterais e um quarteto ofensivo sem meias de criação definidos. A ausência de equilíbrio no meio-campo forçou a equipe a depender de jogadas individuais, algo arriscado contra adversários organizados.
O técnico interino manteve a estrutura que deve ser herdada por Carlo Ancelotti, cujo contrato prevê início apenas em 2025. Até lá, a seleção acumula jogos sem identidade tática clara, o que deprecia o ativo mais valioso da entidade: a marca “Brasil”.
O custo oculto do calendário para investidores
A escolha por amistosos na Austrália e na Índia, em plena reta final do Brasileirão e começo de Libertadores, gera atrito direto com os clubes empregadores dos atletas. Essa desconexão de calendário eleva o risco de lesões e desgaste físico, impactando o retorno esportivo e financeiro dos investidores nos elencos nacionais.
- Janelas FIFA: Duas datas consumidas em deslocamentos intercontinentais longos.
- Valor de mercado: Atletas titulares (Raphinha, Vini Jr., Endrick) atuam fora de ritmo ideal.
- Receita CBF: Contratos de patrocínio e TV dependem de vitórias expressivas, não de empates sofridos.
Em caso de derrota, o prejuízo de imagem é imediato; em caso de vitória, o ganho marginal é baixo diante de rivais fora do top 20 do ranking FIFA. A assimetria de risco-retorno é evidente para qualquer gestor de ativos esportivos.
O fator Ancelotti: expectativa versus realidade contratual
A chegada do italiano é tratada como salvadora, mas seu histórico recente na Seleção — especificamente a Copa de 2022, onde o Brasil igualou a pior campanha em 60 anos — exige cautela. Na ocasião, decisões como a substituição de João Pedro por Neymar nas quartas de final foram amplamente debatidas.
O contrato atual prevê poder de decisão sobre comissão técnica e convocações, mas a transição até junho de 2025 cria um vácuo de poder. Quem responde pelo desempenho nos próximos jogos? A indefinição gerencial é um passivo que o mercado observa com lupa.
Cenários para o ativo “Seleção” até 2026
Os próximos passos definem a trajetória de valor da marca até a Copa do Mundo. Dois vetores principais merecem monitoramento contínuo:
- Eliminatórias: A tabela reserva confrontos diretos contra Argentina e Colômbia ainda no primeiro semestre. Pontos perdidos agora aumentam a pressão por resultados imediatos.
- Integração de base: Estêvão e Endrick representam ativos de alta valorização futura, mas exigem minutos em alto nível para consolidar preço de transferência e maturidade tática.
O fechamento deste primeiro ciclo de jogos mostrou que a “paciência” pedida pela diretoria tem prazo de validade curto para o mercado. O que se observa daqui para frente é a capacidade da CBF de alinhar calendário, comissão técnica permanente e gestão de elenco em uma única estratégia coerente. Sem isso, o risco de desvalorização contínua do principal produto do futebol brasileiro permanece alto.
