Os Estados Unidos estudam proibir exportações de diesel por 90 dias para conter preços internos antes das eleições de novembro. A medida, se confirmada, atinge em cheio o Brasil: hoje, mais de 70% do diesel importado pelo país vem de refinarias americanas.
A dependência não é nova, mas o momento é delicado. O plantio da safra de soja se aproxima e o setor agrícola consome uma fatia gigantesca do combustível. Qualquer interrupção no fornecimento ou disparada de preços reverbera na cadeia logística inteira.
Por que o Brasil não refina o que consome
Apesar de exportar petróleo bruto, o parque de refino nacional opera no limite e não acompanhou o crescimento da demanda. O JPMorgan calcula que 25% do diesel consumido aqui vem de fora — e a fatia americana disparou depois que as compras da Rússia encolheram.
Na gasolina, o quadro é parecido: importadores europeus e do Reino Unido respondem por até 75% das aquisições mensais. A Rússia, que chegou a 32%, caiu para 26%.
O tamanho da conta se o preço livrear
Hoje, subsídios e cortes de impostos seguram a alta dos combustíveis no IPCA em torno de 3% no ano. Mas há uma defasagem enorme em relação ao mercado internacional:
- Diesel doméstico: cerca de metade da paridade externa
- Gasolina no atacado: até 60% abaixo do preço lá fora
Se a defasagem fosse zerada e os subsídios caíssem, o impacto direto no IPCA poderia chegar a 1,5 ponto percentual. No diesel, o efeito indireto sobre fretes e produção agrícola ampliaria o estrago.
O que os bancos projetam para o cenário de restrição
O Morgan Stanley considera improvável um veto total — isso faria a gasolina americana subir e o diesel disparar em outras regiões. Já uma restrição parcial ou temporária está na mesa.
Para o Bradesco BBI, o impacto seria mais severo para distribuidoras do que para a Petrobras em volume. Escassez de produto reduziria vendas em todo o mercado, mas margens maiores poderiam compensar parte da perda.
Efeito cascata na economia real
O governo provavelmente priorizaria o diesel para a logística agrícola e exportação de safras. Sobraria menos para transporte urbano, indústria e geração de energia. Setores que já operam com margens apertadas sentiriam o aperto primeiro.
Há ainda um detalhe técnico: refinarias americanas que adiaram paradas de manutenção poderiam aproveitar a restrição para fazer os reparos agora. Isso limitaria o aumento real de oferta no mercado dos EUA e reduziria a eficácia da própria medida.
O que observar nas próximas semanas
A decisão final da Casa Branca deve sair antes de novembro. Enquanto isso, três variáveis mandam no jogo: o nível dos estoques americanos, a disposição de outros fornecedores (Europa, Oriente Médio) em redirecionar volumes para o Brasil e a capacidade do governo de manter subsídios sem furar o teto fiscal. O custo do pacote atual já beira R$ 40 bilhões desde março — 0,3% do PIB.
Para quem gere custos logísticos ou planeja safra, o sinal é claro: monte cenários com diesel 20% a 30% mais caro. A janela para travar preços ou diversificar fornecedores está aberta agora.
