O dólar fechou a quinta-feira (24) a R$ 5,1931, maior patamar desde agosto, enquanto o Ibovespa perdeu os 184 mil pontos. A combinação de juros americanos no maior nível em 17 anos e petróleo em disparada criou uma tempestade perfeita para ativos brasileiros.
Investidores que ignoraram os sinais externos nas últimas semanas viram o cenário virar de forma abrupta. A pergunta agora não é se o real vai seguir pressionado, mas até onde o Banco Central precisará ir para conter a volatilidade.
O gatilho que ninguém previa: Treasuries acima de 5%
O rendimento do título americano de 10 anos tocou 5,2209% — nível não visto desde 2007. Isso muda completamente a equação de risco para mercados emergentes. Quando o “investimento mais seguro do mundo” paga mais de 5% ao ano, o prêmio para aplicar no Brasil precisa ser muito maior.
O índice DXY, que mede o dólar contra seis moedas principais, subiu 0,14% para 101,27 pontos. O real acompanhou o movimento global, mas com agravantes domésticos que amplificaram a queda.
BC entra em campo com US$ 1 bilhão
A autoridade monetária realizou dois leilões de linha simultâneos, injetando liquidez no mercado à vista com compromisso de recompra futura. A operação funciona como um “empréstimo” de dólares ao sistema financeiro, aliviando a pressão imediata.
O dado que preocupa: o fluxo cambial estava negativo em US$ 7,078 bilhões em setembro (até dia 18). Mais dólares saindo do que entrando — e o mês nem acabou.
Os números que importam para seu bolso
- Dólar à vista: R$ 5,1931 (+0,47% no dia; +0,26% no mês; -5,39% no ano)
- Ibovespa: 183.965,91 pontos (-0,99%)
- Petróleo Brent: US$ 106,60 (+3,41% — maior alta diária em semanas)
- Petróleo WTI: US$ 94,61 (+2,65%)
- Treasury 10 anos: 5,2209% (pico desde 2007)
PIB revisto para baixo: o recado do BC
Paralelamente ao leilão, o Banco Central cortou a projeção de crescimento para 2026 de 2% para 1,8%. Para 2027, a estimativa é de apenas 1,4%. A revisão reflete o impacto defasado dos juros altos sobre a atividade e o cenário externo mais hostil.
Menor crescimento arrecada menos. Menos arrecadação pressiona o fiscal. E o fiscal, como se viu ontem, virou motivo extra de venda.
Fiscal: contenção menor, déficit maior
O governo reduziu a necessidade de corte de gastos de R$ 17,9 bi para R$ 16,1 bi. Parece alívio, mas a previsão de déficit primário para 2026 saltou para R$ 80,9 bilhões. O mercado leu como sinal de que a âncora fiscal segue frouxa.
Some-se a isso a divulgação de novas pesquisas eleitorais ao longo do dia. Incerteza política + fiscal frágil + juros altos lá fora = receita para saída de capital.
Petróleo: a variável que pode piorar tudo
O Brent subiu quase 3,5% com as tensões no Estreito de Ormuz. As negociações entre EUA e Irã seguem indefinidas, e qualquer interrupção no fluxo de 20% do petróleo mundial por ali mantém o prêmio de risco elevado.
Combustível mais caro pressiona inflação. Inflação alta mantém juros altos por mais tempo. Juros altos lá fora e cá dentro: ciclo vicioso que o real sente na pele.
O que observar daqui para frente
A próxima semana traz decisão do Copom e dados de inflação nos EUA (PCE). Se o Federal Reserve sinalizar manutenção de juros elevados por período prolongado, o dólar testa R$ 5,25 com facilidade. No lado doméstico, a execução do arcabouço fiscal e a tramitação do Orçamento 2025 ditarão se o BC precisará ampliar as intervenções cambiais. Quem tem exposição cambial não hedgeada: o custo de proteção subiu, mas a alternativa é assistir à erosão do capital em tempo real.
