Saúde

Médica abandona cirurgia dos sonhos aos 33: o diagnóstico que mudou tudo

Médica cirurgiã Krícis Heather Torres em transição de carreira após diagnóstico de autismo nível 1 aos 33 anos
A cirurgiã que trocou o bisturi pela internet após descobrir ser autista aos 33 anos

Krícis Heather Torres formou-se em cirurgia geral e preparava-se para a urologia quando o próprio corpo impôs um freio. Aos 33 anos, um diagnóstico de autismo nível 1 explicou uma década de exaustão mal compreendida. Ela largou o bisturi e agora aposta na internet para reconstruir a carreira.

A decisão não foi impulsiva. Veio após meses de adaptações frustradas no hospital — incluindo autorização para operar com fones de ouvido — e a constatação de que o ambiente cirúrgico reunia, simultaneamente, os três gatilhos do esgotamento autista: sobrecarga sensorial, exigência social constante e imprevistos de rotina.

O caminho até o diagnóstico: mais de dez anos de respostas erradas

Antes do autismo, Krícis recebeu diagnósticos de depressão e ansiedade generalizada. Tratou ambos. Não melhorou. Mudou de cidade, trocou de psiquiatras, enfrentou filas por avaliação especializada. O cenário espelha um padrão documentado: segundo a neuropsicóloga Joana Portolese (FMUSP), 47% das mulheres autistas recebem outro diagnóstico antes do correto — contra 27% dos homens.

Duas razões principais explicam a disparidade:

  • Camuflagem social: mulheres tendem a internalizar roteiros de comportamento esperado, “performando” neurotipicidade;
  • Internalização do sofrimento: diante de inadequação, a tendência é culpar a si mesma, não o ambiente.

Krícis ilustra o fenômeno: aluna exemplar, aprovada em uma das residências mais concorridas do país (23 candidatos por vaga), ela mascarava sintomas com alto desempenho. O irmão autista, com menos habilidade social, serviu de “baliza” inversa — como ela funcionava “melhor”, assumiu-se típica.

Por que o centro cirúrgico tornou-se insustentável

O ambiente hospitalar concentrava estímulos que a maioria ignora: alarmes contínuos na recuperação pós-anestésica, cheiro de antisséptico, texturas de luvas e campos cirúrgicos, luzes de focos. A hipersensibilidade auditiva foi o primeiro sinal explícito. Depois, o olfato. Por fim, a exaustão de decodificar interações sociais sob pressão — cirurgias de emergência, comunicação com equipe, famílias, pacientes.

Mesmo com fones autorizados, Krícis passou a ignorar sinais básicos do corpo: fome, sede, necessidade de ir ao banheiro durante plantões inteiros. O esgotamento em autistas de diagnóstico tardio, explica Portolese, decorre de anos ultrapassando limites biológicos sem saber que existiam.

A transição para criadora de conteúdo: estratégia ou fuga?

Krícis define a mudança como “tentar uma vida diferente”. O plano: produzir conteúdo sobre saúde nas redes sociais, trabalhar de casa, morar no interior, reduzir estímulos. Não há garantia de renda equivalente — mas a aposta é na sustentabilidade a longo prazo.

O movimento reflete uma tendência: profissionais de saúde neurodivergentes migrando para carreiras com maior controle ambiental. Dados de mercado mostram crescimento de 34% em creators de saúde no Brasil entre 2022 e 2024, com engajamento médio 2,7x superior a posts institucionais.

Sinais de alerta na fase adulta: o que a literatura aponta

Portolese ressalta: o TEA não “aparece” na adultez, é descoberto quando demandas da vida expõem prejuízos funcionais. Quatro eixos merecem atenção:

  • Rigidez ante mudanças: dificuldade real com imprevistos, não simples preferência por rotina;
  • Interação social custosa: evitação de ambientes novos, dificuldade de aprofundar relações, satisfação maior em interesses específicos (hiperfoco) do que no convívio;
  • Perfil sensorial: seletividade alimentar por textura/cor, desconforto com tecidos, cheiros, timbres de voz;
  • Prejuízo concreto: o diferencial não é o traço em si, mas a incapacidade de sustentar emprego, promoção ou formação apesar de bom desempenho teórico.

O que observar daqui para frente

O caso de Krícis expõe uma lacuna sistêmica: residências médicas e ambientes de alta performance ainda não contam com protocolos de triagem neurodivergente ou adaptações estruturais além de paliativos (fones, escalas flexíveis). Enquanto isso, a economia de creators absorve talentos expulsos por incompatibilidade sensorial.

Para gestores de saúde e RH: a retenção de profissionais neurodivergentes exige redesenho de ambientes — não apenas permissões individuais. Para o leitor que se reconhece nos sinais: a avaliação especializada continua sendo o único caminho para distinguir traços de personalidade de condição clínica. O alívio do diagnóstico, como disse Krícis, não apaga o passado — mas permite parar de lutar contra a própria biologia.