Em comício na capital catarinense, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez a declaração mais direta de sua campanha em Santa Catarina: o agronegócio local deveria “se ajoelhar” diante dos recursos federais liberados nos últimos anos. A fala expõe uma fratura política que números sozinhos não explicam.
O evento ocorreu na manhã de sábado (19), na Praça Tancredo Neves, em Florianópolis, sob chuva e tendas. Lula dividiu palanque com Gelson Merisio (PSB), candidato ao governo estadual, e lideranças da federação PT-PSB-PSOL-PDT.
O número que o presidente colocou na mesa
Lula citou um dado concreto para sustentar o argumento: 118 novos mercados internacionais abertos para as quatro principais proteínas produzidas em Santa Catarina — suínos, aves, peixes e bovinos. O estado é o maior exportador nacional de carne suína e o segundo de frango.
O crédito rural também entrou na conta. O Plano Safra 2023/24 destinou R$ 364,2 bilhões ao setor, alta de 27% sobre o ciclo anterior. Desse total, linhas para médios e pequenos produtores cresceram acima da média.
Por que a resistência persiste?
O presidente atribuiu a rejeição a “questão de pele” — ser nordestino e ter origem pobre. Analistas políticos ouvidos reservadamente apontam outros vetores: pautas ambientais, posição sobre o Marco Temporal, e a memória de embates ideológicos entre o PT e entidades como a FAESC e a CNA.
Mas o efeito prático é mensurável. Nas últimas três eleições presidenciais, o oeste catarinense — coração do agro estadual — deu votações acima de 70% aos adversários do PT.
- 118 mercados abertos para proteínas catarinenses desde 2023
- R$ 364,2 bi no Plano Safra vigente
- 70%+ de votos no adversário nas regiões do agro nas últimas eleições
O tabuleiro além do agronegócio
Lula usou o palanque para ampliar a agenda. Criticou as apostas esportivas (bets) e a carta de clubes de futebol contra a regulamentação: “O futebol não pode sobreviver às custas do povo pobre que já torce, vai ao estádio e ainda gasta apostando”.
Na sequência, tocou em soberania nacional e terras raras: “A gente quer explorar, extrair, separar, industrializar aqui no Brasil”. A fala mira a dependência tecnológica externa e dialoga com a pauta de reindustrialização defendida pelo governo.
O “supersábado” de três presidenciáveis
Santa Catarina virou vitrine nacional. Enquanto Lula falava em Florianópolis, Flávio Bolsonaro (PL) cumpria agenda em Joinville e Chapecó. Renan Santos (Missão) previa atos em Criciúma e na capital. O estado, decisivo em 2022, volta a concentrar forças.
Merisio, anfitrião do evento, disse ter recebido “missão” de Lula de frear o bolsonarismo no estado. A aliança PSB-PT em SC repete a costura nacional, mas enfrenta fragmentação local — o PSD do governador Jorginho Mello controla a máquina estadual.
O que observar daqui para frente
A fala de Lula cristaliza um dilema eleitoral: como converter benefícios econômicos tangíveis em capital político num reduto historicamente adversário. Os 118 mercados e o crédito recorde são fatos. A tradução em votos, não.
Para o empresário e investidor que acompanha o cenário, três variáveis merecem monitoramento: a execução orçamentária do Plano Safra nos próximos trimestres, a tramitação da regulamentação das bets no Congresso, e a capacidade de articulação da federação petista em municípios do oeste catarinense. O palanque de sábado foi o começo da resposta — não o fim.
