Economia

iFood acusa rival chinesa de guerra de preços predatória e revela aporte de R$ 24 bi

iFood CEO Diego Barreto anunciando investimento de R$ 24 bilhões contra concorrente chinesa Keeta
iFood acusa Keeta de guerra de preços predatória e revela aporte bilionário para 2026 e 2027.

O iFood formalizou acusações de prática predatória contra a Keeta, nova concorrente de capital chinês, enquanto anuncia um ciclo de investimentos bilionários para 2026 e 2027. A disputa expõe a fragilidade do equilíbrio econômico no setor de entregas e sinaliza para onde o líder de mercado pretende expandir suas margens nos próximos anos.

O estopim da crise são os cupons agressivos da entrante, que, na visão do CEO Diego Barreto, criam demanda artificial e forçam restaurantes a dimensionar estrutura para um volume que não se sustenta sem subsídios.

O que configura a “oferta predatória” na visão do líder

Barreto classifica a estratégia da Keeta não como promoção, mas como “ação indiscriminada” sem base econômica real. O argumento central é que o aporte de capital em subsídios — estimado pelo mercado em cifras bilionárias — distorce sinais de preço e capacidade ociosa.

Segundo o executivo, estabelecimentos contratam mais funcionários e compram mais insumos para atender picos induzidos por descontos de até 90%. Quando a campanha acaba, a estrutura sobra e o prejuízo fica na ponta da cadeia.

  • Denúncia no Cade: protocolada em agosto, pede intervenção imediata.
  • Precedentes globais: Barreto cita que autoridades antitruste de outros países já coibiram práticas semelhantes da mesma controladora.
  • Risco sistêmico: inflação de custos operacionais para restaurantes que não conseguem manter qualidade com margens comprimidas.

A contrapartida: defesa da entrante e o discurso da concorrência

A Keeta rebate afirmando que o iFood usa da posição dominante para blindar um modelo “mais caro e de menor qualidade”. A plataforma entrante alega fomentar um ecossistema mais competitivo, beneficiando consumidores, restaurantes e entregadores com taxas menores e mais opções.

O embate retórico esconde uma disputa por participação de mercado em categorias de alta frequência. Quem controla o hábito de pedido diário — café da manhã, almoço executivo, itens de conveniência — dita as regras de precificação de toda a cadeia.

O contraciclo de R$ 24 bilhões: onde o dinheiro vai entrar

Enquanto briga nos tribunais e na imprensa, o iFood confirma aporte de R$ 24 bilhões para o ciclo abril/2026 a março/2027. O valor supera ciclos anteriores e ignora o cenário macroeconômico adverso — juros altos, câmbio pressionado e consumo enfraquecido.

A alocação prioriza três vetores de crescimento não-lineares:

  • Inteligência artificial: otimização de rotas, prevenção de fraude e personalização de ofertas em tempo real.
  • Mercado e farmácia: consolidação da operação de supermercado e expansão de SKUs farmacêuticos com entrega controlada.
  • Pet shop e conveniência: aceleração agressiva em categorias de recorrência alta e ticket médio resiliente.

Barreto define o momento como “contraciclo”: a empresa investe quando concorrentes reduzem exposição, apostando na maturidade da logística própria para capturar valor onde outros veem risco.

O que observar nos próximos trimestres

A decisão do Cade sobre a denúncia de práticas predatórias funciona como gatilho regulatório. Se houver limitar para profundidade ou duração dos subsídios da Keeta, o ritmo de queima de caixa da chinesa muda — e a janela de expansão do iFood nas novas categorias se alarga.

Paralelamente, a execução do plano de R$ 24 bilhões será testada na capacidade de integrar farmácia e pet à malha logística sem degradar o NPS (Net Promoter Score) do core de restaurantes. O mercado premiará a disciplina de capital: se o CAC (custo de aquisição de cliente) nas novas verticais convergir para patamares sustentáveis antes de 2027, a tese de contraciclo se valida. Caso contrário, a guerra de cupons apenas trocou de endereço.