O Brasil se tornou o principal campo de provas mundial para o uso de inteligência artificial em processos eleitorais. A avaliação é de Bruno Lewicki, head de políticas públicas da OpenAI para a América Latina, que acompanha de perto como as novas regras do TSE vão colidir com a tecnologia em uma disputa com mais de 20 mil candidatos.
A empresa afirma estar preparada para uma eleição sem sobressaltos, mas admite: muitas normas são inéditas e não há jurisprudência para orientar a aplicação prática. O resultado desse teste influenciará pleitos na França, na Espanha e em outros países já em 2026.
Três frentes de preparação da OpenAI
A estratégia da companhia para o período eleitoral brasileiro repousa sobre três pilares. O primeiro é a transparência técnica: todo conteúdo gerado pelo ChatGPT carrega metadados de origem e uma marca d’água invisível que permite rastrear a procedência de imagens.
O segundo pilar é o acesso a informação confiável. São 215 milhões de mensagens diárias enviadas ao ChatGPT apenas no Brasil. Para qualificar esse fluxo, a empresa firmou parcerias com veículos de imprensa — incluindo a Folha — e integrou fontes oficiais como o TSE nas respostas do modelo.
O terceiro eixo é o monitoramento contínuo por equipes de segurança, inteligência e integridade. Os sistemas internos detectam e aplicam políticas que já proíbem a maior parte dos usos problemáticos em contextos eleitorais, com aprimoramento constante nas últimas semanas.
O que as regras do TSE realmente vedam
Uma inovação relevante para 2024 é a proibição de que modelos de IA ranqueiem, recomendem ou favoreçam candidatos — direta ou indiretamente. Lewicki afirma que o treinamento do modelo já busca neutralidade política, mas a norma é nova e carece de interpretação do tribunal.
Estudos do ITS e do Observatório IA nas Eleições apontaram que chatbots ainda recomendavam candidatos em coletas feitas entre fevereiro e julho. A OpenAI contesta o recorte temporal: a campanha nem havia começado. Em teste recente com 33 tentativas, o modelo se recusou a ranquear em 32 casos.
- Personificação indevida para fins eleitorais ou difamação: proibida
- Uso em campanhas: vedado, exceto atividades administrativas
- Anúncios políticos: inexistentes no ChatGPT Brasil (versões gratuita e paga)
- Supressão de voto ou interferência no processo: bloqueada no treinamento
O veto das 72 horas e a responsabilidade das plataformas
O TSE determinou que nenhum conteúdo gerado por IA possa circular — mesmo rotulado — nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito. A redação da norma, porém, foca na publicação, republicação e impulsionamento, não na geração em si.
Na leitura de Lewicki, a responsabilidade pelo cumprimento recai sobre as redes sociais e quem dissemina o conteúdo. A OpenAI manterá suas camadas de defesa: indicar procedência, monitorar usos contrários às políticas internas e cooperar onde couber.
Por que o Brasil dita o ritmo para 2026
Não houve contratação extra para a eleição brasileira. A tecnologia se aprimora diariamente, e o volume de casos — 20 mil candidatos, 215 milhões de interações diárias — cria um laboratório impossível de replicar em testes controlados.
Colegas de Lewicki na França e na Espanha já acompanham o caso brasileiro para calibrar suas próprias estratégias. O executivo resume a postura da empresa: “tranquilidade técnica” combinada com “humildade operacional” para aprender e corrigir em tempo real.
O debate de fundo: segurança além do Vale do Silício
Questionado sobre alertas de pesquisadores quanto a riscos existenciais da IA, Lewicki destaca a preocupação interna com segurança — citando a desaceleração de pesquisas de fronteira em certas frentes. Mas defende que a governança não pode ficar restrita a decisões corporativas em San Francisco.
Para ele, governos, academia e sociedade civil precisam atuar em coordenação internacional. A OpenAI e Sam Altman repetem: o setor demanda um nível de articulação que ultrapassa fronteiras nacionais.
O que observar nas próximas semanas
A aplicação prática das normas do TSE será o termômetro decisivo. Sem jurisprudência, a interpretação do tribunal sobre publicação versus geração, responsabilidade de plataformas versus desenvolvedores, e o alcance da vedação a ranqueamentos definirá precedentes globais. Empresas, campanhas e eleitores devem acompanhar as primeiras decisões — elas desenharão as regras do jogo para as próximas eleições no mundo todo.
