Analistas do JPMorgan identificaram uma assimetria curiosa: o Bitcoin carrega hoje mais posições defensivas que o ouro, e isso pode se transformar em combustível se o apetite por proteção cair. A leitura não é uma aposta direcional, mas um mapa de posicionamento que todo gestor deveria ter na mesa.
O estudo, assinado por Nikolaos Panigirtzoglou, compara fluxos de ETFs, contratos futuros e o nível de “short interest” nos principais fundos listados. O resultado desafia a intuição de quem vê o ouro como porto seguro consolidado e o Bitcoin como ativo de risco puro.
O ouro já zerou as perdas; o Bitcoin só foi até a metade
Desde a reunião do Fed de julho, ambos os ativos viram entradas nos ETFs — o que o banco chama de retorno da debasing trade. Mas a simetria parou por aí:
- ETFs de ouro recuperaram 100% das saídas registradas no início de 2024.
- ETFs de Bitcoin recuperaram cerca de 50% do mesmo movimento.
- A demanda por fundos de Bitcoin desacelerou novamente nas semanas seguintes.
Na prática, o ouro já fez o dever de casa no fluxo; o Bitcoin ainda tem lição pendente. Isso deixa mais espaço para recuperação se o sentimento virar.
No mercado futuro, a desconfiança fala mais alto
O posicionamento institucional em futuros segue elevado para os dois ativos — sinal de suporte estrutural. A divergência aparece nos ETFs:
- IBIT (iShares Bitcoin Trust): short interest próximo da máxima do ano.
- GLD (SPDR Gold Shares): short interest abaixo da média histórica.
A relação put/call no open interest também é mais alta no IBIT. Traduzindo: há mais gente comprando proteção de queda no Bitcoin que no ouro, mesmo com as entradas recentes.
Por que mais “short” pode virar vantagem
O JPMorgan destaca que esse ceticismo excessivo cria uma mola comprimida. Se a demanda por hedge diminuir — por exemplo, com alívio nos juros reais ou avanço regulatório —, o desmonte dessas posições vendidas tende a gerar pressão compradora mais forte no Bitcoin que no ouro.
O raciocínio é condicional: não há previsão de que o BTC supere o ouro, apenas a identificação de um mecanismo de mercado. A assimetria atual (fluxo atrasado + posicionamento mais defensivo) abre a possibilidade de uma recuperação assimétrica se a prudência arrefece.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis ditam se o cenário se materializa:
- Fluxos de ETF de Bitcoin: retomada consistente de entradas semanais.
- Short interest do IBIT: queda sustentada abaixo da média de 90 dias.
- Juros reais nos EUA: recuo dos yields indexados à inflação, reativando a debasing trade.
Enquanto isso, o ouro navega em águas mais calmas: fluxos restaurados, posicionamento leve. Para o investidor, a lição prática é monitorar a taxa de funding e o put/call do IBIT como termômetros antecipados de virada de maré. O potencial está na assimetria; o gatilho, no comportamento dos hedgers.
