Mari Saad anunciou, nesta sexta-feira (18), o fim de seu ciclo à frente da Mascavo, marca de cosméticos que fundou em 2024. A influenciadora segue como sócia majoritária no papel, mas perdeu o controle operacional — e a disputa com os demais sócios já está na Justiça.
O que parecia uma parceria alinhada virou um emaranhado de mais de dez empresas, fluxo de caixa desviado e produtos com defeito que a fundadora não conseguia recolher. O desfecho expõe riscos que todo empreendedor precisa mapear antes de dividir o capital.
O acordo que não saiu do papel
Saad ficou responsável por criação, marketing e desenvolvimento de produto. Os sócios investidores assumiriam a operação: estoque, logística, atendimento e financeiro. O combinado previa transparência total — relatórios, dados de sell-out, acesso a sistemas.
Na prática, os números chegavam pela metade e com atraso. “Eu pedia os dados da operação e eles simplesmente não vinham”, relatou a empresária. Sem visibilidade, decisões estratégicas tornaram-se chute.
Uma marca, dez CNPJs alheios
A estrutura societária revelada por Saad assusta: a operação da Mascavo estava fragmentada em mais de dez companhias, todas pertencentes ao grupo dos sócios investidores. Nenhuma no nome da marca nem da fundadora.
Cada etapa — faturamento, expedição, SAC, estoque — rodava em CNPJ diferente. O resultado: a empresa titular da marca não enxergava a operação por inteiro. “A operação ficou espalhada em pedaços, num labirinto que a nossa empresa simplesmente não consegue enxergar por inteiro”, resumiu.
O dinheiro não caía onde deveria
O ponto mais sensível: receita de vendas. Segundo Saad, cada real pago pelo consumidor caía no caixa das empresas dos sócios, não na sociedade que detém a marca Mascavo.
“A marca, com meu nome, vendendo em todo canto e o dinheiro caindo na conta deles”, afirmou. Demonstrativos financeiros apresentavam inconsistências que não fechavam. Para uma sócia majoritária, a falta de rastreabilidade do faturamento é sinal vermelho crítico.
Produto com defeito e recall negado
A gota d’água veio com a base da Mascavo. Lotes apresentaram problemas de embalagem e Saad exigiu recall imediato: retirar do mercado, comunicar publicamente, trocar o produto de quem comprou.
A resposta dos sócios foi negativa. Sem alinhamento, a fundadora não conseguiu proteger a reputação que levou 15 anos para construir. “Quando o possível acabou, eu falei: ‘Certo, impossível então, vamos para a Justiça’.”
Compensação própria para não deixar cliente no prejuízo
Saad anunciou medida paralela à Mascavo: consumidores lesados receberão R$ 129,90 (valor integral do produto) em crédito para seu próximo projeto, com lançamento previsto para 2027. Se o novo empreendimento não sair até lá, o dinheiro será devolvido em espécie.
“Promessa feita com o meu rosto, quem honra sou eu”, disse. A iniciativa é pessoal, desvinculada da operação atual — e mostra como a responsabilidade de marca pessoal pode superar contratos societários.
O que está em discussão judicial
Os pontos centrais no litígio incluem:
- Estrutura societária fragmentada em empresas dos sócios investidores
- Desvio de fluxo de caixa para CNPJs alheios à marca
- Negativa de acesso a dados e relatórios por parte da sócia majoritária
- Recusa em executar recall de produto defeituoso
- Divergência sobre quem são, de fato, os sócios da operação
Saad destacou trecho processual revelador: “As pessoas que apontamos no processo como responsáveis de fato por essa estrutura societária sustentam judicialmente que não são minhas sócias”.
Próximo capítulo: operação 100% própria
A influenciadora confirmou que permanece no mercado de beleza. O novo projeto terá estrutura verticalizada: “do primeiro ao último passo” sob seu controle. Nada de labirintos societários, nada de caixas pretas operacionais.
Para quem observa de fora, o caso escancara uma lição prática: maioria acionária sem governança operacional é maioria no papel apenas. Cláusulas de tag-along, drag-along e direitos de informação precisam ter dentes — auditoria independente, acesso a sistemas em tempo real, poder de veto em decisões de recall e qualidade.
O que observar daqui pra frente: o desfecho judicial definirá precedentes sobre direitos de sócio majoritário em estruturas fragmentadas. Enquanto isso, o mercado de creator-led brands ganha um case estudo real do que acontece quando a fundadora perde as rédeas da execução. A promessa de Saad — “se errou, assume; se assumiu, corrige” — será testada no próximo lançamento. O relógio para 2027 já começou a correr.
