O iFood acaba de colocar R$ 24 bilhões na mesa para transformar o mercado brasileiro até março de 2027. O valor representa um salto de 41% frente aos R$ 17 bilhões já injetados até agora — e sinaliza que a empresa não pretende apenas defender sua posição, mas redesenhar o jogo.
O anúncio acontece em meio a juros altos, inflação pressionada e a chegada agressiva de concorrentes chineses. Ainda assim, a estratégia segue a mesma lógica dos últimos 15 anos: inovar enquanto o mercado hesita.
Onde o dinheiro vai parar
A divisão dos aportes revela as prioridades claras da companhia:
- R$ 10 bilhões no iFood Benefícios — vertical que dobra de tamanho a cada ano
- R$ 5 bilhões no iFood Pago, braço financeiro que deve crescer 70% em 2025
- R$ 2 bilhões em inteligência artificial, incluindo o desenvolvimento do LCM (Large Commerce Model)
- O restante distribuído entre novas verticais, logística turbo e expansão geográfica
IA que fala a língua do comerciante
O investimento em tecnologia não é aposta futura — é continuidade. O iFood treina seu próprio modelo de linguagem comercial com dados proprietários da plataforma. O objetivo: criar um assistente conversacional que permita ao restaurador gerenciar cardápio, estoque, promoções e relatórios apenas falando ou digitando em linguagem natural.
Diego Barreto, CEO da empresa, resume a abordagem: testar, medir, escalar o que funciona. Nada de grandes lançamentos teatrais; a inovação acontece em ciclos curtos e baseados em dado real.
Crédito para quem move a ponta
O iFood Pago já conta com 15 milhões de assinantes. A expansão do crédito para restaurantes — e, em testes, para pessoas físicas — ataca uma dor crônica do setor: capital de giro rápido, sem burocracia bancária tradicional.
Com inadimplência alta e juros nas alturas, a fintech da plataforma vira alternativa concreta. O crescimento projetado de 70% para este ano não é projeção otimista; é consequência de uma demanda reprimida que o próprio ecossistema revelou.
Supermercados, farmácias e o “tudo em 20 minutos”
As chamadas novas verticais deixaram de ser experimento. As metas internas para 2025 falam por si:
- Supermercados: alta superior a 60%
- Farmácias: expansão acima de 70%
- Pet shops, bebidas, conveniência e presentes: crescimento de três dígitos
A categoria de presentes, inclusive, ganha reforço de peso: perfumaria, maquiagem, brinquedos, acessórios de celular. A integração com a CRM Bônus trará cashback, giftback e bônus unificados — moeda de troca para fidelizar o consumidor final.
Duas frentes no restaurante: preço e velocidade
No core business, duas apostas ganham escala. O hits — refeições do dia a dia com preço reduzido e sem taxa de entrega — avança para cidades médias. O turbo, entrega em até 20 minutos, chega a todas as capitais atendendo também mercados, farmácias e pet shops.
A logística ultra-rápida não é apenas diferencial competitivo; é resposta direta à entrada de players asiáticos que operam com estoque próprio e dark stores. O iFood escolheu o modelo híbrido: rede de parceiros + tecnologia de roteirização + densidade de pedidos.
O tamanho real na economia
Um estudo da Fipe divulgado junto ao anúncio dimensiona o impacto: R$ 167 bilhões movimentados em 2025, equivalentes a 0,70% do PIB brasileiro. São 1,18 milhão de postos de trabalho diretos e indiretos — mais de 1% da população ocupada.
Desde 2020, a cadeia do iFood cresceu 175% em valor movimentado. Números que explicam por que a empresa consegue captar capital e manter o ritmo de investimento mesmo em cenário macro adverso.
Entregadores: renda, regulação e o debate que não acaba
A companhia projeta alta de 20% na renda dos 600 mil entregadores ativos. Barreto defende regulação desde 2021: piso atrelado ao salário mínimo (hoje R$ 1.621), ressarcimento de despesas, seguro e INSS. O iFood já oferece seguro, telemedicina e testa financiamento habitacional para a categoria.
A renda média estaria em torno de 200% do valor-hora do mínimo. Mas o programa Mais Entregas — com pagamentos de R$ 3 a R$ 3,50 por corrida — gerou protestos. A empresa argumenta que o modelo aumenta ganhos por hora ao reduzir o tempo ocioso. A categoria discorda e pede taxa mínima de R$ 10 por entrega.
No Legislativo, o CEO vê pouca chance de avanço regulatório em 2025. O impasse continua.
Concorrência chinesa: disputa judicial e lição de casa
Barreto não nega a ameaça. Confirmou que o iFood processa um concorrente chinês por espionagem corporativa — entrevistas remuneradas, abordagem a funcionários, vazamento de informações sigilosas. Parte do processo corre nos EUA, onde uma quebra de sigilo identificou empresas por trás das ações. No Brasil, a polícia de São Paulo investiga.
A postura: bem-vinda a concorrência, desde que dentro da lei. Enquanto o Judiciário decide, o foco segue em executar o plano de R$ 24 bilhões.
O que observar nos próximos trimestres
Três sinais dirão se a aposta está funcionando: adoção do assistente de IA pelos restauradores (métrica de ativação e retenção), evolução da carteira de crédito do iFood Pago (inadimplência vs. crescimento) e penetração do turbo nas capitais (frequência de uso e ticket médio).
Se a execução acompanhar o anúncio, o iFood não apenas amplia seu moat — redefine o que se espera de uma plataforma de comércio local no Brasil. O relógio corre até março de 2027.
