Adoção dispara, receita despenca: o paradoxo do Ethereum
O Ethereum registrou 13,2 milhões de usuários ativos mensais no primeiro trimestre, um recorde histórico. No entanto, a receita da rede com taxas de transação despencou 81,9% na comparação anual. Como uma infraestrutura pode atrair mais gente e ganhar menos dinheiro ao mesmo tempo?
A resposta está em uma mudança técnica deliberada que altera as regras do jogo para investidores e validadores. A rede abdicou da rentabilidade imediata em favor do volume, criando um desacoplamento inédito entre o uso da blockchain e a valorização do seu token nativo, o ETH.
Os números por trás do desacoplamento
Os dados do relatório da Token Terminal, publicado em 17 de junho, traçam um cenário de extremos. Por um lado, a camada base operou em velocidade máxima. Por outro, o caixa do protocolo derreteu.
- Usuários ativos mensais: 13,2 milhões (+53,5% no trimestre e +85,9% no ano).
- Volume de transações: 200,4 milhões no trimestre (+81,5% anual).
- Capacidade operacional: 25,78 transações por segundo (+81,7% no ano).
- Receita de taxas: US$ 39,9 milhões (-48% no trimestre e -81,9% no ano).
A capitalização de mercado totalmente diluída do ETH refletiu essa pressão, recuando 30,3% em relação ao trimestre anterior, estacionada nos US$ 290 bilhões.
O efeito da atualização “Blob Parameters Only”
A queda acentuada nas taxas não é um acidente, mas o resultado direto do fork “Blob Parameters Only”, implementado em janeiro como parte do ciclo Fusaka. Essa atualização aumentou drasticamente a capacidade de armazenamento de dados da rede.
Com o espaço de bloco muito mais barato, o volume de transações cresceu 38% no período, mas as taxas coletadas foram cortadas pela metade. Segundo a entidade Etherealize, o Ethereum está sacrificando a captura de taxas no curto prazo sob a premissa de que um custo menor desbloqueará uma demanda massiva no futuro.
Mas o efeito mais relevante dessa estratégia aparece na liderança institucional do ecossistema.
Por que a hegemonia em DeFi não salva o preço do ETH
Apesar da queda na receita direta, o Ethereum mantém uma dominação estrutural impressionante. A rede concentra 71% do Valor Total Bloqueado (TVL) das cinco principais blockchains, somando US$ 316,2 bilhões — muito à frente do conjunto formado por Tron, Solana, BNB Chain e Plasma (US$ 129 bilhões).
A infraestrutura também lidera com 79% dos empréstimos DeFi ativos, 62% dos stablecoins e 73% dos fundos tokenizados. O mercado de ativos tokenizados no Ethereum gira em torno de US$ 203,4 bilhões, impulsionado fortemente pelo USDT e USDC. Além disso, commodities tokenizadas, como o ouro, dispararam 60% no trimestre, atingindo US$ 4,7 bilhões.
Contudo, essa fortaleza macro não se traduz em valorização. O ETH é negociado atualmente perto de US$ 1.700, após tocar a mínima de 14 meses em US$ 1.500 no início de junho. Analistas apontam que o ativo vive seu segundo pior primeiro semestre desde 2022, com quedas de 29% no primeiro trimestre e 21% no segundo.
10.000 transações por segundo até 2029: a aposta de alto risco
O futuro do protocolo depende do sucesso do seu roteiro técnico, que prioriza a escalabilidade extrema. A próxima etapa é a atualização Glamsterdam, prevista para o terceiro trimestre, que vai mais do que triplicar o limite de gás. O objetivo final é alcançar 10.000 transações por segundo com finalização quase instantânea até 2029.
Essa estratégia de custos baixos pode atrair gigantes do mercado tradicional, como a BlackRock, que já operam produtos regulamentados na rede. No entanto, o modelo apresenta um desafio imediato: a queima reduzida de taxas alivia a pressão deflacionária sobre o preço do token.
Se a aposta no volume massivo a baixo custo se confirmar, a rede pode capturar valor gigantesco até 2030. Caso contrário, o ETH corre o risco de estagnar frente a concorrentes mais agressivos na captura de valor imediato. O investidor deve observar daqui para frente se o aumento exponencial da base de usuários será suficiente para compensar a perda de rendimento operacional do ativo.
