Economia

Mestre ou culpado? A herança de Greenspan para o mercado

Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, em foto oficial
O ex-presidente do Federal Reserve Alan Greenspan, que morreu aos 100 anos, deixou uma herança entre a prosperidade e a crise.

De “maestro” da economia a bode expiatório da crise de 2008

O ex-presidente do Federal Reserve (Fed) Alan Greenspan morreu aos 100 anos nesta segunda-feira (22), vítima de complicações da doença de Parkinson. Durante quase duas décadas à frente do banco central americano (1987-2006), ele construiu uma reputação que oscilou entre a genialidade e a culpa. Mas como um arquiteto da maior prosperidade dos EUA se tornou o símbolo máximo do risco descontrolado?

A resposta está na sua doutrina. Greenspan foi um ferrenho defensor do “laissez-faire” e do livre mercado, ideias moldadas pela filósofa Ayn Rand. Em sua autobiografia, publicada em 2007, o economista reforçou que sua experiência profunda avaliava a competição de mercado como uma força do bem. Essa convicção guiará toda a sua atuação política e, consequentemente, o destino do mercado global.

O legado da liquidez e a nova geração de investidores

Quando assumiu o Fed em 1987, o novo presidente enfrentou logo de cara o “crash” de outubro. Sua reação definiu sua marca registrada: corte agressivo dos juros e injeção imediata de liquidez no mercado. A fórmula funcionou naquele momento, mas criou um paradigma de resgate que influenciaria gerações de investidores e presidentes do banco central.

Entre 1991 e 2000, os EUA viveram o mais longo período de expansão econômica de sua história. Greenspan virou “maestro”, recebendo condecorações da França e do Reino Unido. A popularidade era tamanha que o mercado passou a agir sob a presunção de que o Fed sempre salvaria o dia em momentos de aperto.

Porém, o efeito mais relevante dessa proteção permanente apareceria em outro setor.

A “exuberância irracional” e o estouro da bolha

A política de juros baixos por períodos prolongados barateou o crédito e estimulou apostas cada vez mais agressivas. O próprio Greenspan percebeu o perigo ao cunhar a expressão “exuberância irracional” em 1996, diante da bolha do setor de tecnologia. Apesar do alerta, não agiu para conter o acúmulo de risco.

A omissão se repetiu no mercado imobiliário. A facilidade de crédito alimentou uma bolha gigantesca, que colapsou em 2008. O paradoxo apontado por seu biógrafo é que Greenspan identificava as fragilidades, mas relutava em furar as bolhas por ideologia. Em depoimento ao Congresso americano após a crise, um abatido Greenspan admitiu que um pilar do livre mercado cedeu, representando um choque para suas convicções.

Da estatística do beisebol aos alertas sobre o futuro

A trajetória pessoal do economista revela muito sobre sua forma analítica. Criado apenas pela mãe no bairro operário de Washington Heights, o nova-iorquino uniu a paixão familiar por música com a predileção do pai por números. Aos 9 anos, criou um código complexo para registrar estatísticas de beisebol. Passou pelo conservatório Juilliard e tocou saxofone com Stan Getz, mas logo percebeu seus limites artísticos e migrou para a economia.

Rejeitando o keynesianismo dominante, abraçou o liberalismo. Na política, assessorou presidentes como Nixon, Ford e Reagan. Sua vida pessoal também chamava atenção: de solteirão convicto a marido da jornalista Andrea Mitchell, com quem estava casado desde 1997.

O que observar daqui para frente

A sombra da crise financeira perseguirá Greenspan para sempre, mas seus últimos alertas merecem atenção dos mercados. Em 2020, aos 94 anos, ele previu com precisão a alta da inflação e o descontrole fiscal nos EUA no cenário pós-pandemia, desejando “boa sorte” ao país diante do cenário desafiador.

Para empresários e investidores, a herança de Greenspan oferece uma lição prática: taxas de juros artificialmente baixas e resgates frequentes do mercado geram prosperidade no curto prazo, mas o custo desse estímulo sempre cobra sua fatura no futuro. O desafio que permanece é avaliar até que ponto os bancos centrais atuais estão dispostos a repetir os mesmos erros do “maestro”.