Economia

Sinovac vai investir R$ 520 mi no Brasil: o que muda no mercado

Investimento da Sinovac de R$ 520 mi no Brasil para biotecnologia
A Sinovac vai investir R$ 520 milhões no Brasil, reforçando a instalação local e a atração do setor de biotecnologia.

Aposta de US$ 100 milhões e o fim da lógica da saída

A Sinovac, farmacêutica chinesa criadora da Coronavac, vai injetar US$ 100 milhões no Brasil nos próximos cinco anos. O montante equivale a cerca de R$ 520 milhões e sinaliza uma mudança de rota no setor: em vez de multinacionais deixando o país, a biotecnologia começa a atrair instalações locais permanentes. Mas para além da vacina, qual o real peso dessa movimentação para o cenário corporativo brasileiro?

Segundo Dimas Covas, cientista-chefe de P&D da Sinovac no Brasil, a empresa quer inverter a lógica de deserção industrial. A ideia é estabelecer um polo de biotecnologia que nasce com a produção de imunizantes, mas aponta para uma atuação mais ampla.

Acordo com o Paraná e a corrida por nova fábrica

Na fase inicial, os desembolsos ganham contornos práticos. A companhia fechou um acordo com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) para produzir duas vacinas: contra a raiva humana e a varicela. O insumo começa importado e, aos poucos, é nacionalizado pelo instituto paranaense.

A transferência de tecnologia está em curso e pode levar até dez anos para ser concluída. O ritmo, no entanto, depende dos investimentos públicos em infraestrutura. O Tecpar já detém a fabricação de 20 milhões de doses anuais contra a raiva animal, expertise que será reaproveitada na versão humana.

Enquanto a parceria avança no Sul, a matriz física da Sinovac no Brasil toma forma. Com seis funcionários contratados, a empresa avalia instalar sua fábrica no interior de São Paulo. Ribeirão Preto e Campinas lideram a disputa pelo empreendimento. Mas o efeito mais relevante da estratégia aparece além das fronteiras do país.

O Projeto Amazon e o protagonismo brasileiro

O investimento brasileiro é apenas a porta de entrada de uma manobra continental. O chamado Projeto Amazon busca replicar na biotecnologia a influência que a China exerce em setores como energia e transporte na América Latina.

O Brasil, sexto maior mercado farmacêutico do mundo, deve liderar esse movimento. A Sinovac já constrói uma fábrica na Colômbia e mantém acordos preliminares com Chile e Argentina. Contudo, o tamanho do mercado brasileiro impõe uma liderança natural na estratégia regional. Para o investidor local, a movimentação sinaliza aquecimento em um setor historicamente dependente de importações.

Tecnologia inativada x RNA mensageiro

Se a chegada de capital chinês aquece o setor, a eficácia tecnológica dos produtos levanta debate. A Coronavac usa vírus inativado, método mais antigo que o RNA mensageiro. Covas rebate a crítica de tecnologia ultrapassada com números e exemplos.

  • Tradição eficaz: Vacinas contra dengue e varicela usam a tecnologia atenuada, com décadas de uso, e seguem dominando o mercado.
  • Aplicação do RNA: A plataforma de RNA não se limita a imunizantes e deve avançar fortemente na oncologia.
  • Sobrevivência: A Sinovac planeja entrar no segmento de RNA para garantir competitividade no futuro.

O cientista também aponta a inteligência artificial como fator de ruptura. A China lidera o uso de IA para gerar protótipos em velocidade inimaginável, fruto de uma política de Estado de três décadas. O Brasil, por outro lado, patina na conversão de ciência em inovação.

O gargalo da inovação e a déficit de US$ 20 bilhões

Apesar do tamanho do mercado, o país é ineficiente em transformar pesquisa em produto. O ambiente de ciência é classificado como medieval, herdado de modelos europeus tardios. O resultado é um déficit de mais de US$ 20 bilhões em saúde, somado à desindustrialização.

O governo tem clareza sobre as prioridades, mas peca na coordenação. Ministério da Ciência, Indústria e Saúde operam sem inteligência sistêmica. O Brasil produz artigos, mas fica no fim da curva de inovação. Para o empresário, o cenário realoca a responsabilidade: enquanto o Estado não coordena, o capital privado define o ritmo.

O que observar daqui para frente

Resistências ideológicas à presença chinesa na saúde não devem ser descartadas, mas Covas lembra que a Sinovac é listada na Nasdaq e enfrenta episódios de politização pontuais. A gigante asiática tem 5 mil anos de civilização e o Brasil precisa aprender com essa pluralidade.

O sinal de alerta para investidores e gestores fica por conta do tempo e da coordenação. A transferência de tecnologia para vacinas depende de contrapartidas públicas. Já a transição da Sinovac para plataformas de RNA e IA determinará se os US$ 100 milhões se tornam um polo competitivo ou apenas um reforço na cadeia de importação de insumos.