Tecnologia

Xbox à deriva: CEO admite crise e promete virada — mas o tempo está acabando

Asha Sharma, CEO do Xbox, em escritório moderno com logotipo verde Xbox ao fundo
Asha Sharma assumiu o Xbox em 2025 prometendo reverter década de prejuízos e queda de mercado.

Asha Sharma assumiu o Xbox em fevereiro com uma frase curta e dura: “Nosso negócio hoje não está saudável”. Aos 38 anos, ela se tornou o primeiro rosto da divisão sem histórico no setor de games — e herdou um problema de US$ 23 bilhões que a Microsoft não consegue resolver há uma década.

A divisão responde por apenas 6% do lucro total da empresa. Nesta geração, vendeu menos consoles que Nintendo e Sony. Franquias como Halo e Gears of War perderam tração cultural. A estratégia de compras bilionárias — Minecraft, Call of Duty, Candy Crush — gerou receita, mas não o crescimento prometido.

Os primeiros 100 dias: choque de realidade e controle de danos

Sharma veio da CoreAI e da Instacart. Não trouxe bagagem gamer, mas trouxe método. Nos primeiros meses:

  • Cortou o preço do Game Pass Ultimate — a versão mais cara do serviço;
  • Restringiu mascotes do Xbox em plataformas rivais;
  • Cancelou a integração de IA generativa que vinha sendo testada;
  • Distribuiu o próprio celular a jornalistas e influenciadores.

A ofensiva de charme funcionou. O ódio misógino e racista das primeiras semanas arrefeceu. A narrativa mudou: o Xbox virou “o azarão com um problema impossível”.

O custo humano da reestruturação

Três dias após demitir 20% da força de trabalho e fechar cinco estúdios, Sharma foi nomeada para a força-tarefa de Produtividade e Empregos do Federal Reserve. Em setembro, uma turnê nacional pelos estúdios revelou o clima: em Maryland, sindicalistas plantaram uma bandeira vermelha para cada emprego perdido.

“Na vida, só existem vitória e aprendizado”, disse ela, manipulando uma bola antiestresse no escritório. “Estou aprendendo todos os dias.”

Por que o Xbox ainda existe dentro da Microsoft

A pergunta ronda Redmond há anos. A Microsoft virou uma empresa de nuvem e IA. O Xbox consome capital, chips e atenção executiva. Satya Nadella recusou entrevista, mas disse em podcast que espera crescimento no próximo ano fiscal — e reclamou que streamers do YouTube lucram mais com jogos do Xbox que a própria Microsoft.

Analistas apostam em separação eventual. Um Xbox independente faria parceria tecnológica com a Microsoft sem pesar no balanço. Sharma nega: “O Xbox não está à venda. Faremos o que for necessário.”

A aposta no Game Pass falhou — e agora?

Phil Spencer, antecessor de Sharma, mirava 100 milhões de assinantes. O teto foi 34 milhões. O número começou a cair. Para não canibalizar vendas, Call of Duty não entrou no catálogo. A compra da Activision por US$ 75,4 bilhões — a maior da história do setor — pode ter custado a vantagem em jogos na nuvem: reguladores britânicos exigiram concessões que, segundo ex-funcionários, mataram controles dedicados ao streaming.

Um porta-voz nega. O fato é que a experiência de nuvem decepcionou.

A nova cartada: 1 bilhão de jogadores via nuvem

Sharma quer levar o Xbox a África, América Latina e Sul da Ásia — rodando jogos em celulares e PCs baratos via cloud. O slogan “Isto é um Xbox” deu lugar a “jogue em qualquer lugar”. Outro pilar: reforçar Minecraft para disputar a geração Roblox.

“Criar também é uma necessidade humana básica”, diz Jason Ronald, líder da próxima geração de hardware — codinome Project Helix. Executivos descrevem o futuro console como uma “caixa de brinquedos” turbinada por IA generativa.

O que observar daqui para frente

Em setembro, mais 270 cortes. A equipe de Halo foi desmantelada; a franquia passou para a Activision. O próximo ano fiscal será o teste real. Se o Game Pass não voltar a crescer e o hardware não der sinais de vida na nuvem, a pressão por cisão ou venda voltará com força. Sharma tem o mandato de Nadella. Mas em Redmond, paciência tem prazo de validade.