A Meta está usando uma brecha tributária para transformar seus data centers de inteligência artificial em “modelos-piloto” experimentais — e a conta cai no colo do contribuinte americano. A estratégia rendeu à empresa quase US$ 4 bilhões em créditos fiscais apenas no último ano, segundo documentos analisados pelo The New York Times. Mas o próprio departamento financeiro da companhia admite: a manobra pode ser derrubada pelo IRS a qualquer momento.
O truque do “modelo-piloto” bilionário
Para fins tributários, a gigante de Menlo Park classifica instalações que custam dezenas de bilhões de dólares como projetos de pesquisa incertos. A lógica: chips Nvidia de última geração, servidores e infraestrutura de refrigeração entrariam no crédito de Pesquisa & Experimentação (R&E), criado nos anos 1980 para estimular inovação de risco.
O problema? Esses mesmos data centers já rodam produtos comerciais — Instagram, WhatsApp, Facebook e o novo agente Muse, app mais baixado em iOS e Android neste mês. “É meio absurdo e fora da realidade”, resume Andre Shevchuck, especialista no crédito na consultoria BPM.
Números que chamam a atenção
- US$ 3,9 bi em economia tributária em 2025 (ante US$ 700 mi em 2023)
- US$ 18,74 bi reservados para “benefícios fiscais não reconhecidos” — alta de 45% em dois anos
- Maior beneficiária do crédito entre empresas de capital aberto nos EUA
- US$ 200 bi investidos em P&D nos últimos cinco anos, segundo a Meta
Disputa antiga, novo capítulo
Não é a primeira vez que a Meta tensiona o IRS. Em 2013, a empresa deduziu US$ 4,1 bi em opções de ações de Mark Zuckerberg como despesa de pesquisa — o fisco cobra de volta US$ 355 milhões. Agora, a aposta é ainda maior: a diferença entre o imposto pago e o que pode vir a ser cobrado saltou para quase US$ 19 bilhões em provisões contábeis.
Advogados consultados pela companhia — incluindo Jeffrey Moeller (ex-Bayer) e Alex Sadler (ex-DoJ) — apontaram riscos. Sadler chamou modelos-piloto de “área de controvérsia” e alertou: o IRS “não gosta” quando produção comercial vira pesquisa no papel.
O que os concorrentes fazem (e não contam)
Apple, Amazon, Alphabet e Microsoft também declaram créditos de P&D acima de US$ 1 bi ao ano. Nenhuma, porém, sinalizou em relatórios aos investidores que usa o benefício para data centers de IA — nem listou o crédito como risco material. A Meta está sozinha nessa exposição.
Por que isso importa para quem investe ou decide
O crédito R&E virou o segundo maior gasto tributário federal dos EUA, projetado em US$ 32,1 bi para 2025. A Meta sozinha responde por mais de 10% desse total. Se o IRS vencer a contestação, a conta virá com juros e multas — e o precedente pode fechar a torneira para todo o setor de tecnologia.
Enquanto isso, a EY, auditora da Meta, passou a orientar outras empresas a replicar a tática na compra de chips para treinamento de IA. O Congresso americano, autor do incentivo em 1981, jamais imaginou data centers de US$ 10 bilhões como “experimento”. James Shannon, ex-deputado que patrocinou a lei, definiu: “Foi muito, muito além do que qualquer pessoa poderia ter imaginado”.
O que observar daqui para frente
Três frentes decidem o desfecho: (1) a disputa judicial já em curso no Tribunal Fiscal — onde o IRS cobra US$ 16 bi por lucros desviados às Ilhas Cayman; (2) eventuais novas regras do Congresso para limitar o crédito a salários de pesquisadores, não hardware; (3) a disposição da Meta em negociar um acordo, prática comum em disputas dessa magnitude. Para investidores, o sinal de alerta está na nota de rodapé: “incertezas relacionadas aos nossos créditos tributários de pesquisa” lideram a lista de riscos não reconhecidos. Quem tem exposição à ação ou negocia com a empresa deve monitorar cada movimentação do IRS nos próximos trimestres.
