O JPMorgan acaba de entregar o mapa tático para a Bolsa brasileira a quatro dias do primeiro turno, dividindo as apostas em três cenários radicais com alvos de dólar que vão de R$ 4,90 a R$ 5,50. A diferença entre o melhor e o pior caso supera 70% de variação no Ibovespa, mas existe uma lista de ações que o banco considera imunes ao resultado das urnas.
O relatório, distribuído a clientes nesta quarta-feira (30), não cita nomes de candidatos, mas desenha claramente os caminhos para uma virada fiscal ou a continuidade da política atual. O pano de fundo, porém, é unânime: 2027 chega carregado de inflação, juros reais elevados e um ciclo de crédito em deterioração.
O cenário base: incerteza fiscal domina 2027
Independentemente de quem vencer no domingo (4), os analistas veem riscos estruturais pressionando o próximo ano. O déficit fiscal foi turbinado por aumentos de gastos recentes, enquanto o petróleo volátil e os subsídios ao diesel mantêm a inflação pressionada. O crescimento desacelera e o crédito piora — um coquetel que exige posicionamento cirúrgico.
Cenário otimista: juros caindo e a aposta no consumo interno
Se houver mudança política com compromisso fiscal, o custo de capital cai e os ativos sensíveis a juros disparam. O banco projeta alta de 50% no Ibovespa e apreciação de 6% do real, levando o dólar para R$ 4,90. As escolhas privilegiam quem ganha com crédito mais barato e demanda doméstica aquecida:
- Shoppings: Iguatemi (IGTI11), Multiplan (MULT3) e Allos (ALOS3). Negociam com desconto apesar de vendas mesmas lojas (SSS) positivas e ocupação entre 96% e 97%.
- Construtoras de alta renda: Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3) lideram; MRV (MRVE3) aparece como opção alavancada.
- Autopeças focadas no Brasil: Randoncorp (RAPT4) e Fras-le (FRAS3), expostas a veículos pesados e alívio direto nas despesas financeiras.
Mas o efeito mais relevante aparece quando o cenário se inverte.
Cenário pessimista: Selic alta e o refúgio nas exportadoras
Caso a eleição resulte em juros mais altos e desconfiança investidora, a estratégia muda para empresas que não dependem do ciclo de crédito doméstico. A projeção é de queda de 21% na Bolsa e desvalorização de 6% do real, com dólar a R$ 5,50. O foco vai para baixa renda e receita em dólar:
- Construtoras MCMV: Tenda (TEND3), Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3), blindadas pela demanda subsidiada.
- Autopeças globalizadas: Tupy (TUPY3) e Iochpe-Maxion (MYPK3) lucram com real fraco e exposição externa.
- Dividendos defensivos: Marcopolo (POMO4) e Mahle (LEVE3) com yields projetados de 11% e 10%.
A “terceira via”: ações blindadas ao resultado das urnas
Para quem não quer apostar no pleito, o JPMorgan destaca duas gigantes com receita dolarizada e drivers próprios de crescimento. Embraer (EMBR3) carrega carteira recorde de US$ 34,5 bilhões e margens em expansão, com impacto nulo da política local. WEG (WEGE3) surfa a expansão de fábricas de transformadores e o boom de armazenamento de energia (BESS), com receita crescendo dois dígitos nos próximos dois anos.
O único risco comum a ambas é uma valorização forte do real — cenário que o banco julga improvável diante dos juros altos nos EUA e da inflação brasileira persistente.
O que observar daqui para frente
O primeiro turno dirimirá parte da nebulosidade, mas o segundo turno (se houver) e a composição do Congresso ditarão o ritmo fiscal real. Mantenha o radar no arcabouço de gastos, na taxa de câmbio como termômetro de confiança e na curva de juros futuros: ela antecipa qual das três carteiras o mercado está precificando. A diversificação entre os cenários, hoje, pode ser a única certeza rentável.
