O New York Times divulgou sua lista das 100 melhores séries do século XXI, mas o método de votação revela mais sobre a indústria do que os próprios títulos escolhidos. Mais de 500 profissionais do setor votaram nos seus favoritos, e o resultado expõe vícios de um mercado ainda muito centrado em si mesmo. Entender essa mecânica muda completamente como você deve ler o ranking.
Não é um júri, é um clube
A publicação não reuniu críticos para debater méritos artísticos. Pediu a atores, roteiristas, produtores e diretores que listassem 10 preferidos lançados desde 2000, sem ordem de preferência. A tabulação final reflete apenas a frequência de menções.
Isso explica por que 80 das 100 séries são produções americanas. Há apenas uma francesa (“Le Bureau”), uma coreana (“Round Six”) e uma japonesa com dinheiro dos EUA (“Xógum”). O resto é domínio anglo-saxão, com 17 títulos britânicos completando a fatia “estrangeira”.
Muitos votantes escolheram seus próprios trabalhos, conforme admitido em entrevistas que acompanham o especial. Não há cota para gênero, país ou diversidade de visão de mundo. O retrato é fiel ao gosto de quem faz TV nos EUA hoje — e só.
O que os números escondem sobre o streaming
Apesar da explosão de plataformas nos últimos anos, a lista funciona como um termômetro do “prestígio” tradicional. Dramas dominam com 51 entradas contra 33 comédias. Séries multicâmera (formato clássico de sitcom com plateia) praticamente sumiram.
O formato minissérie, frequentemente elogiado pela qualidade condensada, aparece só 11 vezes. Reality shows? Apenas três. Documentais, seis. A animação teve representante único: “BoJack Horseman”.
- Distopias ganharam espaço;
- Séries médicas encolheram (sobram “The Pitt” e “House”);
- O passado recente vence o histórico (“Chernobyl”, “Mad Men”).
Mas o dado mais revelador não está na tabela. Está na ausência de “Família Soprano”. A série estreou em janeiro de 1999 — 12 meses antes do corte arbitrário do século XXI. O Times precisou de um texto inteiro só para justificar a exclusão. O crítico James Poniewozik admitiu: quase tudo ali deve algo a Tony Soprano.
Gosto vs. Influência: o abismo do top 20
O pódio — “Breaking Bad”, “The Wire”, “Mad Men” — é inegável. A quarta colocada, “Succession”, levanta suspeitas de “efeito memória recente”. “Fleabag” em quinto faz sentido pela autoralidade única de Phoebe Waller-Bridge.
O problema aparece na cauda. “Scandal” e “Gilmore Girls” fecham a lista na 99ª e 100ª posições. Shonda Rhimes e Amy Sherman-Palladino moldaram a cultura pop muito além do gosto corporativo de 500 insiders. “Lost”, que juntou 13,5 milhões no finale, fica em 22º. “The Handmaid’s Tale”, símbolo de protestos globais, amarga o 67º lugar.
“24 Horas”, vanguardista no formato e ganhadora de 20 Emmys, nem entrou. “A Maravilhosa Sra. Maisel” e “O Estúdio” (The Studio) foram ignoradas entre as comédias premiadas. Cancelamentos pós-#MeToo parecem ter pesado contra “House of Cards” (48º) e “Louie” (41º).
O que observar daqui para frente
Listas assim movem orçamentos de aquisição, definem catálogos de streaming e sinalizam quais formatos atraem dinheiro “de prestígio”. Se o viés anglófono persistir, produções globais de alto nível seguirão subvalorizadas nas negociações de licenciamento internacional.
Para o investidor ou executivo, a lição prática é clara: o “selo de qualidade” da indústria americana ainda fala inglês, premia drama serializado e privilegia quem já está dentro da sala de votação. A próxima grande aposta global pode não estar nesse top 100 — e é exatamente aí que costuma morar o retorno real.
