A Justiça de São Paulo determinou o arresto das ações da mineradora Itaminas em uma disputa que coloca em xeque o preço pago pela fatia de Daniel Vorcaro na companhia. A medida, assinada pela 3ª Vara de Falências em 10 de setembro, não paralisa a operação da mina, mas trava os direitos dos sócios sobre o ativo. O desfecho pode obrigar os compradores a complementar o valor da transação.
O liquidante do Banco Master contesta os R$ 401 milhões desembolsados pela participação de 50% que Vorcaro detinha. Se o Judiciário entender que o ativo valia mais, a diferença terá de ser paga pelos atuais controladores para recompor a massa de credores do banco em liquidação.
O que o arresto na prática significa
A ordem judicial não atinge as ações diretamente, pois 100% do capital da Itaminas está alienado fiduciariamente a credores. O congelamento recai sobre os direitos aquisitivos dos sócios — ou seja, o que sobraria para eles após a quitação das dívidas garantidas.
Dois cenários ativam a trava:
- Se as dívidas forem pagas e a alienação fiduciária encerrada, as ações que retornariam aos sócios ficam indisponíveis.
- Se houver execução das garantias e leilão dos papéis, eventual excedente (o chamado sobejo) ficará retido pela Justiça.
Esse excedente é comum, já que o valor das garantias costuma superar o montante emprestado.
A venda que gerou a controvérsia
Vorcaro vendeu sua metade na Itaminas em setembro de 2025, dois meses antes de sua prisão. A transação ocorreu pouco mais de um ano após ele ingressar no negócio, em julho de 2024, ao lado das famílias Gontijo (AVG Participações) e Géo (5A Holding).
Os números chamam a atenção:
- Compra original (jul/2024): US$ 295 milhões pelo controle total — cerca de R$ 1,66 bilhão na época.
- Valor implícito da fatia de 50% de Vorcaro na entrada: acima de R$ 800 milhões.
- Venda da mesma fatia (set/2025): R$ 401 milhões — menos da metade da avaliação anterior.
O liquidante quer saber se houve defasagem. A Itaminas nega.
Defesa dos sócios: processo competitivo e múltiplos acima do mercado
Rodrigo Géo, vice-presidente de finanças da mineradora, afirma que a saída de Vorcaro seguiu rito de mercado. BTG Pactual e J&F avaliaram o ativo, e a proposta dos atuais sócios foi a maior.
“Toda a transação foi por condições de mercado. Nossa proposta foi maior. Se não fosse, o Daniel não teria vendido para nós”, diz Géo. Ele argumenta que, considerando passivos e dívidas assumidas após a entrada de Vorcaro, o preço pago na saída foi proporcionalmente mais alto que o da compra.
Os múltiplos de Ebitda aplicados, segundo o executivo, superam as médias de empresas de mineração listadas na B3. “Nem passa pela nossa cabeça que teria algum valor a pagar mais. Absolutamente zero.”
Destino dos recursos e próximos passos
Um ponto de convergência: tanto a Itaminas quanto o liquidante concordam que o dinheiro da venda deve ir para o conglomerado Master — credores e FGC —, não para o bolso de Vorcaro. Géo afirma que os pagamentos já foram depositados em juízo.
A estrutura do negócio previa R$ 150 milhões à vista na assinatura e o saldo de R$ 251 milhões em três parcelas anuais de R$ 83,3 milhões. Banco Central e FGC foram formalmente comunicados, e os contratos exigiam a destinação dos recursos à capitalização do banco.
A mineradora prepara recurso para derrubar o arresto nos próximos dias. O advogado do liquidante não respondeu aos contatos da imprensa.
O que observar daqui para frente
A disputa gira em torno de uma questão técnica: a metodologia de valuation usada na venda de setembro de 2025 reflete o valor justo do ativo? Se o perito judicial concluir que não, a conta chega para os sócios Gontijo e Géo. O desfecho impacta diretamente a capacidade de pagamento do Master e, por tabela, o Fundo Garantidor de Créditos. Acompanhe a nomeação do perito e a apresentação da defesa da Itaminas — são os próximos marcos que definirão se o arresto vira complemento de preço ou é revogado.
