A capital paulista vive uma virada silenciosa nos canteiros: seis em cada dez edifícios em obras ainda usam concreto e alvenaria tradicionais, mas o modelo industrial avança rápido e já responde por 40% das novas torres. A promessa é sedutora: erguer a estrutura em um terço do tempo com uma fração dos operários.
O segredo não está apenas no drywall, mas em banheiros que chegam prontos, janelas pré-montadas e estruturas de aço que dispensam tijolos. Entenda por que a conta ainda não fecha para todos os incorporadores.
A equação que falta mão de obra para resolver
Não é só preferência tecnológica. O arquiteto Gustavo Garrido, presidente da Asbea-SP, resume o motor da mudança: falta gente em todos os níveis, do pedreiro ao gerente de projetos. As novas gerações evitam a profissão, afugentadas por ambientes insalubres e ondas de calor extremas.
Enquanto o mercado imobiliário cresce, o pool de profissionais encolhe. A saída encontrada pelas construtoras é trocar volume de gente por especialização. Um prédio de 24 andares que exigia até 200 trabalhadores no método convencional pode ser entregue com cerca de 60 no sistema industrializado.
Menos entulho, mais desempenho: o que muda dentro do apartamento
A industrialização foi além das divisórias de gesso. Hoje, o pacote inclui:
- Módulos de banheiro: chegam semiprontos ao canteiro; basta instalar e conectar as tubulações.
- Estruturas pré-fabricadas: pilares, vigas e lajes montados como peças de encaixe.
- Steel frame: perfis de aço galvanizado substituem alvenaria em edifícios de menor altura.
- Janelas e portas: pré-montadas, exigem apenas ajuste fino no local.
O resultado prático é um canteiro “seco e limpo”, com drástica redução de resíduos. Garrido destaca ainda o ganho de performance: paredes industrializadas oferecem isolamento térmico e acústico superior à alvenaria comum.
O paradoxo do tempo: projeto lento, obra expressa
Aqui está o nó que trava muitos empreendedores. O planejamento de uma obra industrializada demanda 20% a 30% mais tempo na prancheta do que o tradicional. Cada detalhe precisa ser definido antes de a fábrica cortar o aço ou moldar o concreto.
A compensação vem na execução: a montagem no terreno é pelo menos três vezes mais rápida. Para quem financia a obra com capital próprio ou precisa entregar chaves para investidores, o fluxo de caixa acelera. Mas para quem depende de venda na planta para financiar a construção, o alongamento da fase de projeto pode ser um obstáculo.
Preconceito do consumidor e a barreira do custo inicial
Apesar das vantagens técnicas, dois freios persistem. O primeiro é o bolso: o metro quadrado industrializado sai mais caro na ponta do lápis. O segundo é cultural. Parte dos compradores ainda torce o nariz para paredes de drywall, associando-as a fragilidade ou “apartamento de escritório”.
Garrido nota, porém, que a resistência cai à medida que o morador percebe o silêncio entre as unidades e a facilidade para passar tubulações em reformas futuras. O retrofit de edifícios antigos, aliás, tornou-se vitrine obrigatória para a tecnologia.
O que observar daqui para frente
A transição está na terceira onda, segundo a Asbea: saiu do drywall para sistemas completos de pré-fabricação. O termômetro do setor será o seminário da entidade nos dias 30 de setembro e 1º de outubro no Distrito Anhembi, focado em sustentabilidade. Se a curva de custos inverter com a escala, a proporção 60/40 vista hoje nos canteiros paulistanos pode virar história em poucos ciclos imobiliários.
