Economia

Construção industrial avança em SP e já responde por 40% dos canteiros

Canteiro de obras industrial em São Paulo com estruturas pré-fabricadas e módulos metálicos
Construção industrial atinge 40% dos canteiros em SP, impulsionada por escassez de mão de obra e prazos apertados

A fatia de obras industriais na capital paulista saltou para 40% do total em execução, revela levantamento da Asbea-SP. O método tradicional, baseado em concreto e alvenaria, ainda lidera com 60%, mas a curva de adoção acelera num cenário de escassez de mão de obra em todos os níveis.

O que está por trás dessa virada? A resposta passa por custos ocultos, prazos comprimidos e uma geração que recusa o canteiro convencional.

O choque entre dois mundos construtivos

De um lado, o sistema artesanal: tijolos, blocos, fôrmas de madeira, argamassa preparada no local. Do outro, o industrial: paredes de drywall (gesso acartonado com lã de rocha), pilares e lajes pré-moldados, estruturas de steel frame (aço galvanizado) e módulos de banheiro que chegam prontos para instalação.

Segundo Gustavo Garrido, presidente da Asbea-SP, a migração não é moda — é sobrevivência. “Há falta de mão de obra em todos os níveis e as construtoras buscam técnicas mais secas, limpas e sustentáveis”, afirma.

Mas o preço de entrada ainda trava muitas decisões. O projeto industrial demanda 20% a 30% mais tempo na fase de planejamento. A compensação vem depois: a execução física termina em até um terço do prazo do método tradicional.

Números que explicam a conta

Um edifício de 24 andares ilustra a diferença de escala:

  • Sistema tradicional: 100 a 200 trabalhadores no canteiro
  • Sistema industrial: 30 a 65 profissionais — redução de até 67%

A produtividade por metro quadrado dispara. Janelas e portas chegam pré-montadas; basta encaixar. Banheiros entram como módulos completos, conectados em horas. O canteiro deixa de ser fábrica e vira linha de montagem.

Perfil do trabalhador muda — e a escassez aperta

A transição exige outro tipo de gente. Pedreiros e serventes dão lugar a montadores de painéis, operadores de guindaste, técnicos de vedação e gestores de logística de módulos. A mão de obra especializada substitui a braçal.

O problema: ninguém quer mais ser pedreiro. As novas gerações rejeitam a exposição ao sol extremo, poeira, ruído e posturas forçadas — agravados pelas ondas de calor recentes. Da base ao topo da pirâmide (mestres, gerentes, arquitetos), o mercado está cheio. Quase todos os profissionais experientes já estão empregados.

Preconceito do consumidor ainda freia, mas cai

Muita gente ainda torce o nariz para drywall em apartamento. Acha que “parede de gesso” é frágil, ruim de isolamento, sinônimo de padronização sem alma.

A realidade técnica conta outra história: resistência acústica e térmica superiores, menos resíduos, estrutura mais leve (aliviando fundações) e canteiro limpo. O preconceito recua à medida que moradores experimentam o conforto real — e incorporadoras mostram laudos de desempenho.

O que observar nos próximos 12 meses

A terceira onda da construção industrial no Brasil vai além do drywall. Integra banheiros modulares, estruturas pré-fabricadas de concreto, steel frame para até 5 pavimentos e logística just-in-time de componentes.

Fique atento a três vetores:

  • Custo de capital: juros altos penalizam o investimento inicial maior do método industrial
  • Regulação: normas de desempenho (NBR 15575) tendem a favorecer sistemas com laudos padronizados
  • Formação: cursos técnicos de montagem industrial ainda são escassos — quem capacitar primeiro larga na frente

O seminário anual da Asbea-SP, nos dias 30 de setembro e 1º de outubro no Distrito Anhembi, terá a sustentabilidade como eixo central. O evento costuma sinalizar para onde o dinheiro grande do setor vai fluir nos trimestres seguintes.