Tecnologia

Você não vai acreditar: OpenAI bane escritor por ‘plano de golpe’ que era ficção

Ilustração conceitual: robô de IA bloqueia escritor brasileiro com selo "Banido" sobre manuscrito de filosofia
Erro de moderação da OpenAI baniu autor por confundir ficção filosófica com ameaça real

A OpenAI baniu um assinante brasileiro do ChatGPT Plus ao interpretar erroneamente a escrita de um livro de filosofia como planejamento de assassinato em massa e golpe de Estado. A empresa admitiu o erro meses depois, mas o usuário já havia perdido centenas de megabytes de propriedade intelectual. O caso expõe falhas graves na moderação automatizada e no suporte a clientes pagantes.

O desenvolvedor de sistemas Eduardo da Silva Bey, que assina como Vael Gerhard Bey, pagava a mensalidade desde abril de 2025. Em sete meses, produziu cerca de 500 páginas sobre niilismo e metafísica. Em novembro, a conta foi suspensa sem aviso prévio nem explicação técnica clara.

A acusação que não condizia com a realidade

Na defesa judicial, a OpenAI listou prompts supostamente perigosos: logística de golpes de Estado, métodos de envenenamento de civis e estratégias para ocultar crimes. A empresa alegou que a “especificidade e consistência” das consultas extrapolavam qualquer contexto ficcional.

O detalhe crucial: os projetos na plataforma tinham títulos como “Tesseract” e “Predadora-perfeita”. Os diálogos citados incluíam referências à vilã General Esdeath, do anime Akame ga Kill!, e questionamentos filosóficos sobre ditadores canibais — não planos operacionais.

Justiça primeiro protegeu, depois recuou sob pressão

Em fevereiro de 2026, o desembargador Selso de Oliveira concedeu liminar para restabelecer o acesso. O fundamento: impedir a exportação de dados violava o Código de Defesa do Consumidor e a LGPD. Dois meses depois, o mesmo magistrado revogou a decisão.

O que mudou? A OpenAI apresentou prints de conversas sem vincular os Conversation IDs ao User ID do autor. Ainda assim, o argumento de risco iminente — reforçado pelo atentado em Santa Catarina contra o STF — prevaleceu sobre a ausência de prova técnica direta.

O e-mail que mudou tudo (e o prejuízo que permanece)

Em 13 de julho, sem comunicar os autos, a OpenAI enviou mensagem curta: “A ação tomada contra a sua conta foi um erro e já restabelecemos o seu acesso.” Assinado por “Ruhi D., equipe de privacidade”.

A conta voltou, mas:

  • Foi rebaixada para o plano gratuito, com limites drásticos de armazenamento;
  • Os 877 MB de arquivos — o livro, pesquisas, histórico — sumiram; o painel mostra zero bytes;
  • Uma proposta de acordo extrajudicial (valor acima da causa + cláusula de confidencialidade) foi recusada.

Bey mantém o processo. Quer a restituição dos dados, garantia judicial de não reincidência e, só então, discute indenização. “Confiei na empresa, paguei o plano e, de repente, apagaram tudo sem deixar baixar. É o mínimo”, resume.

O que observar daqui para frente

O episódio acende alertas para qualquer profissional que use IA como ferramenta de trabalho:

  • Moderação opaca: sistemas automatizados + revisão humana falharam em distinguir ficção de ameaça real, e a empresa não auditou os logs antes de banir;
  • Portabilidade de dados: a LGPD garante acesso aos próprios dados, mas a OpenAI deletou o conteúdo antes do prazo de 30 dias e não forneceu mecanismo de export durante o bloqueio;
  • Risco contratual: assinantes “Plus” ou “Enterprise” não têm SLA claro de recuperação de conta nem indenização por perda de IP em caso de falso positivo.

Enquanto a ação corre em Joinville, Bey já migrou para a DeepSeek. O mercado deve acompanhar: se a líder global não garante a integridade do trabalho de um cliente pagante, a confiança — ativo mais valioso na economia da IA — começa a ruir.