A uma semana do primeiro turno, as agendas dos presidenciáveis deixaram de lado o discurso genérico e escancararam as divergências econômicas que devem ditar o rumo do mercado nos próximos meses. O que estava implícito virou promessa de palanque: teto de gasto, taxa de juros e composição do Judiciário.
O dia 28 de setembro serviu como termômetro do que cada candidato considera prioritário para o eleitor decisivo — e para o investidor que tenta precificar o risco Brasil.
O choque fiscal proposto por Caiado e a resposta da esquerda
Ronaldo Caiado (PSD) foi o mais cirúrgico ao detalhar números em Goiânia. Propõe limitar o crescimento dos gastos obrigatórios a 50% da expansão do PIB e cortar 25% das despesas discricionárias. A meta é sinalizar solvência sem depender exclusivamente de aumento de receita.
Do lado oposto, Hertz Dias (PSTU) defendeu o fim do arcabouço fiscal vigente e investimentos massivos em universidades federais, argumentando que o ajuste atual estrangula áreas sociais. O debate deixou clara a bifurcação: ancoragem fiscal rigorosa versus expansão do gasto público financiada por dívida ou emissão.
Empreendedores, juros e a porta giratória do setor privado
Flávio Bolsonaro (PL) concentrou a agenda em São Paulo — Brás e Mercadão — com discurso direto para o varejo e a indústria: redução de impostos para empreendedores e ataque frontal aos juros altos. “Ninguém aguenta mais o preço das coisas”, resumiu, captando o desconforto do setor real com o custo de capital.
Augusto Cury (Avante) adotou estratégia distinta: reuniu-se com executivos do Bradesco, a Associação Nacional dos Transportes Rodoviários (ANTF) e representantes do YouTube Brasil. O cancelamento de ato religioso para priorizar a agenda corporativa sinaliza onde o candidato busca lastro de governabilidade.
A promessa que mexe no tabuleiro do STF
Clariana Barão (DC) protagonizou a promessa institucional mais concreta do dia: comprometeu-se a indicar quatro mulheres para o Supremo Tribunal Federal, caso eleita. A medida alteraria drasticamente a composição da Corte e o equilíbrio de poderes, gerando incerteza jurídica imediata para contratos de longo prazo e marcos regulatórios.
Saúde, direitos e a disputa pelo eleitorado urbano
Lula (PT) usou Belém e Manaus para prometer expansão de exames modernos, diagnósticos rápidos e acesso a especialistas no SUS. A aposta é na saúde como vetor de recuperação de votos no Norte e Nordeste.
Samara Martins (UP) dividiu a agenda paulistana entre panfletagem na Mooca e ato pela legalização do aborto na Avenida Paulista, além de evento na Universidade Zumbi dos Palmares. A pauta de costumes e identidade funciona como contraponto à agenda econômica dos adversários de centro-direita.
Os ausentes e os que apostam no varejo
- Romeu Zema (Novo): almoço com apoiadores em Caeté (MG) e entrevista em rádio local — estratégia de baixo custo e alta penetração no eleitorado mineiro.
- Renan Santos (Missão): ato noturno em Vitória (ES), focado na mobilização de base.
- Rui Costa Pimenta (PCO), Wilson Grassi (Democrata), Leonardo Avalanche (PRTB): sem agenda pública divulgada, o que pode indicar foco em nichos específicos ou restrição de recursos de campanha.
- Edmilson Costa (PCB): concedeu entrevista a jornalista independente, mantendo discurso para o eleitorado de esquerda organizado.
O que observar daqui para frente
Os próximos sete dias devem transformar propostas em números de pesquisa. A reação do mercado aos discursos de Caiado (austeridade) e Flávio Bolsonaro (juros/impostos) ditará a curva de juros futuros e o câmbio na abertura de segunda-feira. A promessa de Clariana sobre o STF deve provocar notas técnicas de escritórios de advocacia e agências de risco. Para o empresariado, a reunião de Cury com Bradesco e ANTF sugere que a pauta de infraestrutura e crédito direcionado ganhará espaço no debate de segundo turno, independentemente do vencedor. Acompanhe a evolução do Ibope/Datafolha desta semana: cada ponto percentual move a precificação de ativos de risco no Brasil.
