Economia

Desenrola 3.0: O Segredo de R$ 150 Bi que Coloca o Nubank no Topo

Ilustração do programa Desenrola 3.0 com logotipo do Nubank e valores R$ 150 bi em destaque
Nova fase do Desenrola pode injetar até R$ 150 bilhões no mercado com protagonismo do Nubank.

O governo federal publicou a medida provisória do Desenrola 3.0 com uma mudança radical: a União passa a comprar carteiras inadimplentes diretamente dos credores, com desconto mínimo de 90%. O Goldman Sachs calcula que o teto de R$ 15 bilhões em recursos públicos pode absorver até R$ 150 bilhões em valor de face. A notícia pegou o mercado de surpresa, mas há um vencedor antecipado — e um risco silencioso no radar.

Como funciona a nova engenharia financeira

Diferente das edições anteriores, não há garantia de primeiras perdas via FGO. O Tesouro entra no leilão como comprador direto. Para participar, o credor precisa aceitar o “corte” de 90% no valor nominal da dívida. Vence quem oferecer o maior desconto, respeitando o limite orçamentário.

O foco são pessoas físicas com dívidas entre 720 e 1.645 dias de atraso (dois a quatro anos e meio) e valor original até R$ 10 mil. O estoque elegível em cartões e empréstimos sem consignação soma cerca de R$ 300 bilhões. A expectativa oficial é iniciar os leilões em novembro de 2026.

  • Desconto mínimo: 90% sobre o valor de face
  • Orçamento da União: R$ 15 bilhões
  • Potencial de face adquirido: até R$ 150 bilhões
  • Perfil alvo: Cartão de crédito (rotativo e parcelado) e empréstimo pessoal sem desconto em folha

Por que o Nubank concentra as apostas do Goldman

A composição da carteira do banco digital é um caso à parte. No segundo trimestre de 2026, quase 90% dos ativos de crédito do Nu estavam em cartões e empréstimos pessoais. Para efeito de comparação, nos grandes bancos tradicionais essa fatia varia entre 10% e 30%.

O detalhamento impressiona: 64% em cartão de crédito e 25% em empréstimos pessoais. No Inter, a exposição a cartões fica em 29% e a empréstimos pessoais é zerada. Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil apresentam participações residuais nessas linhas. Quanto maior a exposição ao crédito sem garantia, maior o alívio potencial com a limpeza de balanço.

Além da concentração, três pilares protegem a tese: duração curta da carteira, excesso de capital regulatório e rentabilidade superior. Na visão dos analistas Tito Labarta, Tiago Binsfeld e Juliana Ohara, isso dá ao Nu uma blindagem extra caso o ciclo de crédito piore antes de melhorar.

O contraponto perigoso: regulação do Bacen

O mesmo perfil que torna o Nubank o maior beneficiário do Desenrola 3.0 expõe a instituição a um risco regulatório específico. O Banco Central estuda elevar o fator de ponderação de risco (RWF) para operações de cartão de crédito, visando conter o endividamento das famílias — que marcou 49,8% em abril de 2026, perto do topo histórico.

Se a medida avançar, os bancos terão de alocar mais capital para sustentar a mesma carteira. O impacto seria proporcionalmente maior no Nubank, justamente pelo peso do rotativo e do parcelado em seu balanço. O relatório ressalva, contudo, que o colchão de capital atual absorveria o choque sem comprometer a operação.

O que a história do programa ensina sobre o futuro

Cautela é a palavra de ordem. O Desenrola 1.0 (jul/2023 a mai/2024) renegociou R$ 53 bilhões com custo de R$ 1,7 bi ao FGO, beneficiando 15 milhões de pessoas. O efeito na inadimplência foi temporário: os índices voltaram a subir em 2024 e 2025. A maior queda ocorreu na faixa de um a dois salários mínimos.

Já o Desenrola 2.0, lançado em maio de 2026, mirou renda até cinco salários (R$ 8 mil) e dívidas de 90 dias a dois anos. Moveu cerca de R$ 22 bilhões. O Goldman destaca que a correlação de 80% entre a Selic defasada seis meses e a inadimplência acima de 90 dias sugere que cortes de juros só aliviam o crédito com atraso significativo.

O que observar daqui para frente

A implementação depende de regulamentação do Ministério da Fazenda. Se os leilões saírem do papel em novembro, bancos com estoques elevados de NPLs antigos (non-performing loans) ganham uma janela rara de liquidez a custo conhecido. Para o investidor, o monitoramento deve ser duplo: volume efetivamente adquirido nos leilões e a tramitação da mudança no RWF do cartão. O primeiro dita o alívio de curto prazo; o segundo, o custo de capital de longo prazo.