A nova pesquisa Quaest, divulgada nesta segunda-feira, coloca Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em empate técnico rigoroso num eventual segundo turno: ambos marcam 42% das intenções de voto. No primeiro turno, porém, o presidente abre cinco pontos de frente. Essa discrepância sinaliza um eleitorado volátil e um cenário de alta polarização que deve ditar o ritmo dos mercados e das articulações políticas nos próximos meses.
O levantamento, contratado pela Globo e pelo jornal O Globo, ouviu 2.004 eleitores em 120 cidades entre 24 e 27 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
O xadrez do primeiro turno: vantagem não garante vitória
No cenário inicial, Lula aparece com 39% (variando entre 37% e 41% na margem), contra 34% de Flávio Bolsonaro (32% a 36%). A distância de cinco pontos parece confortável, mas esconde a fragmentação do centro-direita.
Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) estão tecnicamente empatados na casa dos 3% a 4%. Romeu Zema (Novo) marca 1%. Juntos, esses nomes somam percentual relevante que, se unificado, alteraria a dinâmica da disputa.
- Lula (PT): 39% (oscilou de 36% a 39% nas últimas cinco rodadas)
- Flávio Bolsonaro (PL): 34% (subiu de 29% para 34% no mesmo período)
- Indecisos: 5% (caíram de 10% em agosto)
- Brancos/Nulos: 10% (subiram de 8%)
A queda dos indecisos e o aumento de votos nulos sugerem definição precoce do eleitorado, mas também rejeição aos nomes postos.
Cenários de segundo turno: onde a eleição realmente se define
A Quaest testou cinco simulações de runoff. O dado mais relevante para analistas de risco político é a paridade exata entre os dois polos principais.
No confronto direto Lula vs. Flávio Bolsonaro, ambos travam em 42%. As curvas históricas mostram convergência: o petista caiu de 43% (agosto) para 42% agora; o filho do ex-presidente subiu de 40% para 42%. Indecisos somam 3%; brancos e nulos, 13%.
Os demais cenários revelam teto de rejeição ao petista:
- Lula (43%) x Caiado (40%): empate técnico (margens se tocam em 41%-42%).
- Lula (42%) x Renan Santos (39%): empate técnico.
- Lula (42%) x Cury (33%): vantagem numérica de Lula fora da margem.
- Lula (46%) x Zema (30%): vitória clara do atual presidente.
A leitura para o mercado: apenas candidaturas com forte identidade de direita (Flávio) ou perfil gestor de centro-direita (Caiado) conseguem equiparar a força do incumbente. Nomes de nicho ou outsiders perdem força no mano a mano.
A trajetória das curvas: recuperação do governo e consolidação da oposição
Os dados de série histórica mostram dois movimentos simultâneos. Lula recuperou fôlego no primeiro turno: saiu de 36% em meados de setembro para 39% agora. Flávio Bolsonaro, por sua vez, construiu base sólida: saltou de 29% para 34% no mesmo intervalo.
No segundo turno contra Flávio, a estabilidade é a marca. Lula oscilou entre 40% e 43% em todas as rodadas; Flávio, entre 40% e 42%. Não há tendência clara de ruptura — o que projeta uma campanha de segundo turno decidida no detalhe, no comparecimento e na máquina.
Avaliação de governo: sinal de alerta para a economia
Para além da corrida eleitoral, a avaliação do mandato atual traz números que impactam diretamente expectativas fiscais e regulatórias.
- Aprovação do trabalho de Lula: 46% (estável ante agosto, mas caiu a 43% no meio do caminho).
- Desaprovação: 49% (superior à aprovação pela primeira vez na série).
- Avaliação geral do governo: Positiva 34% | Regular 23% | Negativa 41%.
A avaliação negativa (41%) supera a positiva (34%) por sete pontos. O grupo “regular” encolheu de 27% para 23%, migrando majoritariamente para a reprovação. Isso indica endurecimento do julgamento sobre a gestão, não apenas oscilação de humor.
O que observar daqui para frente
A coleta de dados ocorreu antes das definições finais sobre o pacote fiscal e da tramitação da reforma tributária no Senado. O próximo levantamento captará o efeito dessas variáveis sobre a aprovação — e, por tabela, sobre a transferência de votos para 2026.
Três variáveis decidirão se o empate técnico vira vantagem numérica:
- Entrega fiscal: se o arcabouço e o corte de gastos convencerem o “regular”, a aprovação sobe.
- Unificação da oposição: Caiado, Tarcísio ou Flávio? A definição do nome único antecipa o segundo turno.
- Judicialização: eventuais impedimentos de candidaturas (inelegibilidades) redistribuem o eleitorado de Flávio Bolsonaro instantaneamente.
Enquanto o primeiro turno mostra Lula à frente, o segundo turno expõe a fragilidade da reeleição: metade do eleitorado vota nele, a outra metade vota em quem estiver do outro lado. Para investidores, o cenário base continua sendo polarização extrema com viés de continuidade na política econômica — mas com risco de cauda (tail risk) elevado caso a oposição consiga aglutinar o voto anti-Lula num nome único competitivo.
