Os Estados Unidos começaram a importar ouro venezuelano em março, mas o metal carrega rastros de crime organizado que ninguém consegue apagar. Barras que valem centenas de milhões de dólares estão paradas em armazéns americanos porque refinadoras se recusam a tocá-las. O motivo: a cadeia de fornecimento passa por minas onde facções armadas cobram pedágio de 20% sobre cada grama extraído.
A Casa Branca apresentou o acordo como vitória contra a corrupção. A realidade nas minas do sul da Venezuela conta outra história.
O acordo que ninguém quis assinar
Em 5 de março, o secretário do Interior Doug Burgum posou para fotos ao lado de executivos da Trafigura na capital venezuelana. Horas depois, um avião fretado decolou carregando US$ 100 milhões em ouro bruto — o primeiro carregamento legal em anos. “Conseguimos trazer o ouro para casa fisicamente”, comemorou Burgum dias depois em conferência do setor energético.
A pressa teve custo. O metal saiu do país antes que auditores independentes visitassem as minas. A Trafigura contratou um auditor apenas na primavera e um consultor de risco no verão, meses após começar as compras regulares que podem chegar a 400 kg por mês.
Três fontes com conhecimento dos carregamentos confirmam: centenas de milhões em ouro permanecem intocados em depósitos. Refinadoras exigem garantias de que o metal não financiou facções, destruição ambiental ou corrupção — padrões internacionais que a operação ainda não atende.
Como o crime entrou na cadeia oficial
El Callao, coração da mineração venezuelana, revela o mecanismo. A região abriga minas subterrâneas da estatal Minerven — parceira da Trafigura — e centenas de operações informais chamadas “brigadas”. Donos de minas, líderes de brigadas e funcionários da Minerven confirmam ao mesmo padrão: mineradores pagam proteção ao Tren de Guayana, facção que controla o território.
O sistema funciona assim:
- 20% da produção de cada brigada vai direto para a facção — prática batizada localmente de “el sistema”
- Brigadas operam dentro da área cercada da Minerven, com conhecimento da estatal
- O ouro das brigadas é derretido junto ao da Minerven antes da exportação
Ou seja: as barras que chegam aos EUA contêm, no mínimo, uma parcela de ouro que financiou o crime organizado. David Soud, investigador de ouro ilícito contratado pela própria Trafigura, admite: “A exploração está profundamente enraizada no ecossistema de ouro venezuelano. É extremamente difícil construir uma cadeia livre disso.”
Novos jogadores, riscos maiores
Enquanto a Trafigura travava as minas industriais, a Casa Branca abria espaço para outros. Em abril, uma delegação empresarial visitou Caracas. Entre eles, Sean Pi, da Heeney Capital, fundo de private equity que testemunhou no Congresso a favor de acelerar projetos de mineração alinhados à agenda de Trump.
Pi fechou parceria com a Mercuria, concorrente da Trafigura, para explorar El Chocó — mina a céu aberto administrada pelo Estado. A estimativa conjunta: US$ 2,2 bilhões em exportações minerais por ano. Mas há um detalhe: prestadores de El Chocó já pagavam proteção ao mesmo Tren de Guayana.
Julia Yansura, da FACT Coalition, resume o dilema: “Cerca de 90% do ouro venezuelano é produzido por meios criminosos. Encontrar os 10% em conformidade é procurar agulha no palheiro.” A Heeney promete modernizar a mina segundo padrões internacionais, mas não detalhou como romperá os laços com o crime organizado.
O que observar daqui para frente
Seis meses após o primeiro voo, a estratégia da Casa Branca mantém-se: sanções afrouxadas, pressão por resultados rápidos e certificação delegada a terceiros. Democratas no Congresso prometem fiscalizar. Refinadoras continuam reticentes — Simon Houghton-Dodd, da Asahi Refining, perguntou em evento setorial em Londres: “Queremos ser a primeira a anunciar publicamente que recebemos ouro venezuelano?”
Para investidores e compradores, o sinal de alerta está claro: nenhum carregamento saiu do estoque para revenda final. Enquanto a devida diligência não comprovar rastreabilidade total — da mina ao lingote —, o ouro venezuelano continuará sendo ativo tóxico no balanço de quem ousar comprá-lo. A próxima janela de auditoria independente, prevista para o último trimestre, ditará se a “limpeza” prometida virou realidade ou permanece discurso de palanque.
