Economia

Dívida federal bate R$ 9,29 tri: o que o Tesouro esconde nos juros

Gráfico da dívida pública federal brasileira atingindo R$ 9,29 trilhões com destaque para juros compostos
Dívida federal bate recorde de R$ 9,29 tri impulsionada por juros compostos em agosto

A dívida pública federal subiu 0,04% em agosto e fechou o mês em R$ 9,29 trilhões, novo patamar recorde. O avanço parece discreto, mas esconde uma dinâmica de juros que consome recursos em velocidade acelerada.

O Tesouro Nacional confirmou os dados nesta segunda-feira (28). A alta nominal de R$ 10 bilhões em um único mês não veio de novos empréstimos, mas da conta de juros que ninguém para de pagar.

O peso invisível dos juros compostos

Em agosto, a incorporação de juros à dívida somou R$ 88,39 bilhões. Para dimensionar: esse valor supera o orçamento anual de pastas inteiras do governo. Ao mesmo tempo, o Tesouro resgatou R$ 84,43 bilhões em títulos vencidos.

O resultado líquido é uma dívida que cresce mesmo quando o governo devolve dinheiro ao mercado. É o custo de carregar um estoque que já beira os 90% do PIB.

Prazo alonga, mas custo sobe

Há um movimento tático por trás dos números. O prazo médio da dívida subiu de 4,05 para 4,10 anos, dando fôlego ao caixa no curto prazo. O contraponto é o custo médio: saltou de 12,45% para 12,59% ao ano em doze meses.

Alongar o perfil da dívida exige pagar prêmio de risco maior aos investidores. Em resumo: o governo ganha tempo, mas a fatura fica mais cara.

Reserva de liquidez encolhe 11,9% em um mês

O colchão de segurança — a reserva de liquidez destinada exclusivamente ao pagamento da dívida — caiu de R$ 1,37 trilhão para R$ 1,208 trilhão. Uma redução nominal de 11,89% em trinta dias.

  • Julho: R$ 1,37 trilhão
  • Agosto: R$ 1,208 trilhão
  • Agosto/2024: R$ 1,13 trilhão (alta de 6,49% em 12 meses)

A queda mensal acende um alerta: o Tesouro está usando a reserva para honrar vencimentos sem ir ao mercado em condições adversas. Funciona enquanto houver estoque.

O cenário para 2026: entre R$ 9,7 e R$ 10,3 trilhões

A projeção oficial do Tesouro para o fim de 2026 mantém a banda entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. A amplitude de R$ 600 bilhões reflete a incerteza sobre taxa Selic, câmbio e resultado primário.

Se o centro da meta for confirmado, a dívida terá crescido cerca de R$ 700 bilhões em pouco mais de dois anos. O ritmo depende, sobretudo, da capacidade de gerar superávit primário para parar de emitir títulos só para pagar juros.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis vão ditar a trajetória imediata: o leilão de NTN-B longo na próxima quarta-feira, a decisão do Copom sobre a Selic e a arrecadação de setembro. Qualquer ruído fiscal pressiona a curva de juros e eleva o custo da rolagem.

Para o empresário e o investidor, o recado é claro: o custo de capital no Brasil segue indexado a uma dívida que não para de crescer. Planejar hedge e fluxo de caixa assumindo juro real acima de 6% ao ano deixa de ser conservadorismo e vira necessidade.