A Nvidia acaba de autorizar o maior programa de recompra de ações da história corporativa americana: US$ 150 bilhões. O valor pulveriza o recorde anterior da Apple e sinaliza uma confiança agressiva da gestão no futuro da inteligência artificial. Mas será que o mercado está precificando certo o risco por trás dessa montanha de caixa?
Com a aprovação do conselho nesta segunda-feira (28), a fabricante de chips eleva seu poder de fogo total para US$ 235 bilhões em recompras até janeiro de 2028. A cifra equivale a mais de R$ 1,2 trilhão, superando o PIB de muitos países emergentes.
Por que isso muda o jogo para quem investe
Recompras gigantescas costumam aparecer quando o crescimento desacelera — foi assim com a Apple em 2024. O caso da Nvidia, porém, foge ao script tradicional. A receita da empresa ainda deve saltar cerca de 90% neste ano fiscal, enquanto o lucro líquido projeta dobrar, batendo US$ 245 bilhões.
Essa dinâmica cria um cenário raro: uma “máquina de caixa” em expansão acelerada devolvendo capital como se fosse uma madura pagadora de dividendos. O fluxo de caixa livre, que fechou o último ano em quase US$ 100 bilhões, tem projeção de triplicar para US$ 329 bilhões em 2028.
Os números que sustentam a aposta de Jensen Huang
- Autorização total: US$ 235 bi (programa anterior + novo anúncio).
- Prazo: Janeiro de 2028.
- Lucro projetado 2028: US$ 387 bi (Visible Alpha).
- Caixa livre 2028: US$ 329 bi (estimativa de consenso).
- Highlights de 2026: Ações subiram ~20% no ano (vs. +1.200% desde o ChatGPT).
Huang, CEO da companhia, afirmou que a medida reflete “confiança na oportunidade de longo prazo” da mudança de plataforma para computação acelerada. A leitura do mercado, contudo, oscila entre aplaudir a força do balanço e temer que a melhor fase de expansão já tenha ficado para trás.
Clientes rivais, dependência real
Um detalhe crucial passa despercebido: a base de clientes da Nvidia lê-se como um “quem é quem” da IA generativa. OpenAI, Anthropic, SpaceX e até o Google — que desenvolve seus próprios chips (TPUs) — compram GPUs da empresa em escala massiva.
Essa dependência cruzada blindou a receita contra a volatilidade de um único grande cliente. Enquanto a Apple sofria com a saturação do iPhone em 2024, a Nvidia surfa uma onda de investimento em infraestrutura que o Goldman Sachs estima superar US$ 1 trilhão apenas em 2026.
O que observar daqui para frente
O ritmo de execução das recompras será o termômetro real. Se a Nvidia acelerar as compras nos próximos trimestres, o sinal é de que a gestão vê o papel barato frente ao fluxo de caixa futuro. Se o ritmo for lento, pode indicar cautela com a sustentabilidade da demanda por GPUs de última geração.
Fique atento às próximas conferências de resultados: a margem bruta e o guidance de capital expenditure (CapEx) dos hyperscalers (Microsoft, Amazon, Meta, Google) ditarão se os US$ 329 bilhões de caixa livre projetados para 2028 são conservadores ou otimistas demais. O cheque está assinado; a execução é que contará a história real.
