O primeiro turno está marcado para domingo (4) e o último fim de semana de campanha serviu como vitrine final das prioridades econômicas e sociais de cada candidatura. Enquanto uns focaram na regulação de mercados bilionários, outros acenaram com crédito barato ou exploração de recursos naturais.
A diferença de tom entre os palanques não é apenas retórica: ela desenha cenários distintos para o orçamento, a taxa de juros e o ambiente de negócios a partir de 2027. O que cada um escolheu defender — e omitir — nas últimas 48 horas revela mais do que qualquer programa de governo.
O tabuleiro das apostas: proibição ou taxação pesada
O tema mais transversal das agendas foi a regulação das bets. O presidente Lula (PT), em caminhada na Zona Leste de São Paulo, defendeu a proibição total da operação, assinada por decreto na sexta (25), e prometeu caça às casas clandestinas. O argumento central: evitar o endividamento da população de baixa renda.
Na mesma linha, Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) endossaram restrições duras. Caiado mirou na publicidade do setor; Cury foi além, sugerindo extinção ou taxação elevada para conter danos à saúde mental e à economia doméstica. Para o setor de pagamentos e publicidade, o sinal é de encolhimento rápido de receitas.
Crédito barato e seguro-safra: o recado do agronegócio
Em Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) concentrou fogo em duas frentes vitais para o PIB rural: juros mais baixos e criação de um seguro-safra robusto. A defesa de “mais crédito para o agronegócio” ataca diretamente o custo de funding do BNDES e das linhas rurais, pressionando a política monetária.
Se eleito, a pressão por subsídios implícitos via equalização de taxas deve subir à mesa do Ministério da Fazenda já no primeiro trimestre. Investidores do agro devem monitorar a disposição do Congresso em financiar esse passivo.
Petróleo em Sergipe e pautas de costumes: a aposta de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL) usou o Nordeste para prometer exploração de petróleo na costa de Sergipe (“tirar do fundo do mar para o povo sergipano”). A fala sinaliza continuidade de uma política energética baseada em fósseis, com potenciais conflitos ambientais e de licenciamento.
- Segurança: Redução da maioridade penal, castração química para estupradores e CNH para menores.
- Economia: Programas de empreendedorismo como contraponto a políticas de transferência de renda.
A agenda foi encerrada com comício em Goiânia, estado-chave para o eleitorado conservador.
Escala 6×1 e impostos: o que muda para contratos e folha
Lula reforçou a bandeira do fim da escala 6×1, em tramitação no Congresso. A aprovação impactaria diretamente custos de mão de obra em varejo, indústria e serviços — setores que empregam em escala.
Já Renan Santos (Missão), em Minas e Bahia, focou na redução de impostos e custos estatais. A proposta genérica, sem detalhe de compensação fiscal, exige ceticismo do mercado quanto à viabilidade fiscal.
Ausências, podcasts e a fragmentação das campanhas menores
Candidatos como Leonardo Avalanche (PRTB) e Clariana Barão (DC) não divulgaram agendas de rua no sábado. Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata) e Hertz Dias (PSTU) priorizaram debates em podcasts (Kritikê, 3 Irmãos, My News) e atos em nichos específicos — Avenida Paulista, maracatu em Florianópolis, lançamento de livro em Brasília.
Edmilson Costa (PCB) circulou por blocos de carnaval em Curitiba e debates sobre soberania em Maringá. A estratégia digital e de nicho substitui a capilaridade física, limitando alcance eleitoral, mas mantendo bases ideológicas aquecidas.
O que observar daqui para frente
A semana decisiva traz o último debate televisivo na quinta-feira (1) e a divulgação das pesquisas de intenção de voto até sábado (3). O mercado deve precificar três variáveis: a capacidade de transferência de votos dos líderes nas urnas, a composição do futuro Congresso (que valida ou enterra pautas como 6×1 e bets) e a sinalização de política fiscal do eventual vitorioso nos discursos de 7 de outubro. Mantenha o radar ligado na curva de juros futuros: ela antecipa o risco político melhor que qualquer comício.
