Economia

O segredo por trás da reforma que pode mudar o orçamento do Brasil para sempre…

Evento de lançamento da reforma orçamentária do CCiF na FGV EBAPE no Rio de Janeiro
Especialistas apresentam proposta "Nossa Reforma Orçamentária" para modernizar gestão fiscal brasileira.

O Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) apresentou na sexta-feira (25) uma proposta profunda de reestruturação do sistema orçamentário brasileiro. O estudo, batizado de “Nossa Reforma Orçamentária”, foi divulgado na FGV EBAPE, no Rio de Janeiro, com apoio da MaisProgresso.Org. A promessa central: tirar o País da armadilha do curto prazo e dar previsibilidade real à gestão de recursos públicos.

Mas por que isso importa para quem investe, empreende ou gere negócios no Brasil? A resposta está na conexão direta entre regras orçamentárias claras e o ambiente de juros, câmbio e confiança que cerca qualquer decisão privada.

O diagnóstico: por que o modelo atual trava o País

Segundo o documento, o sistema vigente sofre de uma “governança fiscal frágil”. Não faltam leis — sobra fragmentação. Regras complexas, ausência de integração entre planejamento e execução, sistemas de informação que não conversam entre si e uma rigidez de despesas que engessa 90% do orçamento federal compõem o quadro.

O resultado prático: decisões de curto prazo dominam a alocação de recursos. O Estado perde capacidade de adaptação. Políticas públicas nascem e morrem no mesmo ciclo anual, sem avaliação de resultados.

Mudança de regime: competência no lugar de caixa

A pedra angular da proposta é a adoção do regime de competência como base do orçamento. Hoje, receitas e despesas só aparecem quando o dinheiro entra ou sai do caixa. No novo modelo, compromissos futuros — como aposentadorias já concedidas, folha de pessoal projetada, renúncias fiscais e dívidas de longo prazo — passam a ser registrados no momento em que nascem.

Isso cria uma visão intertemporal das contas. O gestor enxerga hoje o custo que uma decisão terá daqui a cinco, dez ou vinte anos. A integração entre contabilidade e orçamento deixa de ser teórica e vira ferramenta de decisão.

  • Previdência: obrigações atuariais aparecem no ano em que são contraídas.
  • Pessoal: progressões de carreira e reajustes futuros são provisionados.
  • Renúncias fiscais: impacto real sobre a receita líquida torna-se transparente.
  • Crédito de longo prazo: serviço da dívida é alocado no horizonte correto.

Dever de executar e validação independente: o fim do “orçamento de ficção”

A proposta resgata um mandato constitucional esquecido: a administração tem o dever de entregar os bens e serviços previstos no orçamento. Não significa executar cegamente cada linha — metas fiscais, limites de despesa e impedimentos técnicos justificados seguem como exceções legítimas.

Para evitar que projeções otimistas mascarem a realidade, o estudo propõe validação independente de estimativas de receita, despesa com pessoal e previdência. O fortalecimento da IFI (Instituição Fiscal Independente), a criação de um Conselho de Gestão Fiscal e a participação de entidades externas na avaliação de estados e municípios compõem essa blindagem.

O Comitê Gestor do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) também entraria no jogo, produzindo projeções de receita subnacionais com metodologia unificada.

Regras fiscais mais simples, horizonte de médio prazo e carry-over

O arcabouço de regras seria redesenhado para ser mais simples e sustentável, com mecanismos de escape para choques reais. O Plano Plurianual (PPA) e a Lei Orçamentária Anual (LOA) passariam a operar com perspectiva de quatro anos, atualizada continuamente — o fim da “miopia orçamentária”.

Cada programa do PPA seria rastreável na LOA: recurso alocado, entrega prevista, resultado esperado. A conexão entre planejamento e execução deixa de ser retórica.

Outro mecanismo prático: o carry-over. Dotações autorizadas mas não usadas poderiam ser executadas no exercício seguinte, desde que preservados objetivos e resultados. Isso reduz o incentivo perverso ao “gasto de dezembro” e à descontinuidade de obras e serviços.

Orçamento por resultados e spending review: o dinheiro precisa entregar

A proposta incorpora orçamento por resultados: objetivos, metas e indicadores passam a orientar a alocação. Não basta saber quanto foi gasto; é preciso saber o que foi entregue e qual impacto gerou. Sistemas de monitoramento e avaliação viram rotina, não exceção.

Paralelamente, uma spending review (revisão de despesas) periódica — horizonte de três a cinco anos, atualizada continuamente — examinaria a eficácia, eficiência e alinhamento de cada programa. O que não funciona é redesenhado, reduzido, substituído ou encerrado. Espaço fiscal é liberado para prioridades reais.

Emendas parlamentares e controle: transparência com responsabilidade

O estudo reconhece que o caráter impositivo das emendas parlamentares aumentou a rigidez e fragmentou a aplicação de recursos. A solução não é eliminá-las, mas integrá-las ao ciclo de resultados: vinculação a planos de trabalho, prestação de contas reforçada, transparência ativa.

Órgãos de controle (TCU, tribunais de contas estaduais e municipais) passariam a alimentar diretamente o processo de revisão de programas. Auditoria e avaliação viram insumo para decisão de manter, alterar ou cortar despesas.

Uma lei geral para substituir o emaranhado normativo

Hoje, as regras permanentes do orçamento estão espalhadas entre a Constituição, a Lei 4.320/1964, a Lei de Responsabilidade Fiscal, emendas constitucionais e sucessivas LDOs. A proposta consolida tudo em uma Lei Geral do Sistema Orçamentário — estável, coerente, acessível.

A LDO recuperaria sua função original: definir metas fiscais, prioridades administrativas, riscos, parâmetros macroeconômicos e diretrizes para a LOA do exercício. Regras de governança ficam na lei geral; escolhas de curto prazo, na LDO.

O que observar daqui para frente

A tramitação no Congresso será o termômetro real da viabilidade. Pontos de atrito prováveis: a validação independente de projeções (mexe em autonomias), o carry-over (altera dinâmica de fim de ano), a spending review (ameaça interesses consolidados) e a nova lei geral (exige quórum qualificado).

Para o setor privado, o sinal mais relevante é a mudança de mentalidade: o debate sai de “quanto gastar” para “como planejar, executar e avaliar ao longo do tempo”. Se a reforma avançar — mesmo que parcialmente —, a previsibilidade fiscal melhora. Isso reduz prêmio de risco, ancoragem de expectativas de inflação e, no médio prazo, abre espaço para juros estruturalmente mais baixos.

Acompanhe a tramitação da PEC ou projeto de lei que materializar essas ideias. A velocidade de implementação do regime de competência e a criação do Conselho de Gestão Fiscal serão os primeiros indicadores de se o Brasil está, de fato, saindo da armadilha do curto prazo.