Meio Ambiente

Brasília ferve 1,85°C a mais: o plano que pode salvar a mobilidade da capital

Mapa de calor de Brasília mostrando aumento de temperatura e congestionamento viário
Brasília registra alta de 1,85°C em 60 anos, ameaçando infraestrutura viária projetada para automóveis

A temperatura média do Distrito Federal subiu 1,85 °C em seis décadas e a projeção para 2070 aponta mais 6 °C de aumento. O dado do LaSUS da UnB expõe um problema que vai muito além do desconforto térmico: a malha viária pensada para automóveis nos anos 60 não resiste a chuvas concentradas, ondas de calor e secas prolongadas que agora se repetem em ciclos curtos.

Engenheiros e urbanistas ouvidos pela reportagem concordam: a mobilidade deixou de ser apenas questão de transporte para virar questão climática. A cada evento extremo, falhas antigas — drenagem deficiente, pouca arborização, dependência do carro — ganham proporções de emergência.

O custo oculto do “plano piloto” para o bolso do contribuinte

Quando uma via alaga ou o asfalto derrete sob 38 °C, o prejuízo não fica restrito ao congestionamento. Manutenção corretiva consome até cinco vezes mais recursos que a preventiva, segundo estudos do ITDP. Além disso, a perda de horas produtivas no trânsito impacta diretamente a competitividade das empresas instaladas no DF.

O gerente de projetos Iuri Moura resume: “Infraestruturas dimensionadas para chuvas de retorno em 100 anos estão falhando a cada década. O planejamento de 40 anos atrás não contemplava essa frequência”.

Quatro eixos que especialistas consideram inegociáveis

  • Inversão modal: Priorizar transporte coletivo de média e alta capacidade (metrô, VLT, BRT) em vez de vias exclusivas para automóveis.
  • Integração real: Bicicletas e calçadas seguras conectando bairros a estações, reduzindo o “último quilômetro” de carro.
  • Compactação urbana: Ocupar vazios em áreas já infraestruturadas, encurtando deslocamentos diários.
  • Infraestrutura verde: Corredores ecológicos, jardins de chuva e arborização viária para absorver picos de precipitação e reduzir ilhas de calor.

O que a natureza ensina sobre drenagem urbana

A professora Liza Andrade (UnB) defende soluções baseadas na natureza: ruas projetadas para infiltrar água no solo em vez de canalizá-la direto para córregos. “Muda o desenho da via, cria um sistema integrado onde a infraestrutura verde evita extravasamentos e ainda refresca o microclima”, explica.

Experiências em cidades como Medellín e Cingapura mostram que corredores verdes lineares reduzem em até 3 °C a temperatura superficial do asfalto e cortam pela metade o volume de escoamento superficial em chuvas intensas.

Resposta do governo: metas no papel e gargalos na operação

A Semob reconhece a necessidade de transporte público de qualidade, vias expressas e modais de alta capacidade. O novo Plano Diretor de Transporte e Mobilidade (PDTU) e o PDOT incorporam essas diretrizes. No entanto, nove trens do Metrô-DF estão fora de circulação em 2025, limitando a capacidade real de atrair usuários do carro.

Já a Seduh aposta no modelo “cidade compacta e policêntrica”, com adensamento ao longo dos eixos de transporte coletivo. A meta declarada é reduzir deslocamentos longos, mas a implementação depende de alterações no uso do solo e aprovação de projetos setoriais que ainda tramitam.

O que observar nos próximos 18 meses

Três indicadores dirão se a capital está virando o jogo: (1) taxa de ocupação da frota de metrô e VLT em horário de pico; (2) quilômetros de ciclovias protegidas entregues e efetivamente conectadas a terminais; (3) evolução da cobertura arbórea viária medida por sensoriamento remoto. Empresas que dependem de logística urbana no DF devem monitorar esses números — eles ditam custos de frete, pontualidade de equipes e valorização imobiliária nas centralidades emergentes.