Economia

Dívida pública pode acelerar para 4% do PIB ao ano: o alerta que ninguém discute na eleição

Gráfico da dívida pública brasileira projetando crescimento de 4% do PIB ao ano com alerta fiscal
Projeção mostra dívida pública podendo dobrar ritmo de crescimento no próximo mandato presidencial

No próximo mandato presidencial, a dívida bruta do governo geral pode crescer acima de 4% do PIB anualmente — quase o dobro do ritmo atual — se o país se limitar a executar o arcabouço fiscal vigente. A conta chega em um momento em que o desemprego já não tem para onde cair e o crescimento perdeu o motor da ociosidade.

O cenário expõe uma armadilha: juros reais só caem se o gasto primário desacelerar, mas a política segue debatendo tudo, menos o Orçamento.

Três forças empurrando a dívida para cima

O diagnóstico vem do economista Samuel Pessôa e aponta três vetores simultâneos. Primeiro, o estoque de dívida encerra 2026 cerca de 12 pontos percentuais do PIB acima do nível de 2022. Segundo, a rolagem dessa dívida ocorreu em janelas de juros muito mais altos que os da pandemia — o custo de carregamento subiu estruturalmente. Terceiro, o PIB potencial desacelera porque a taxa de desemprego, que caiu de 8,5% para 5,5% entre 2023 e 2025, não tem espaço para repetir o feito.

O crescimento recente foi extensivo: produziu-se mais porque havia gente e máquinas ociosas. Esse reservatório secou.

O que os modelos erraram — e por que importa agora

Economistas subestimaram o PIB de 2022 a 2025. Menos comentado: também erraram a trajetória do desemprego. Ninguém projetava 5,5% em 2025. A surpresa positiva no emprego mascarou a ausência de ganhos de produtividade. Sem queda adicional da ociosidade, a expansão nos próximos quatro anos será inevitavelmente mais fraca.

Menor crescimento significa denominador do PIB crescendo menos — o que, sozinho, eleva a razão dívida/PIB mesmo sem novo déficit.

A proposta de 2% de superávit primário em quatro anos

Na quinta-feira (24), Felipe Salto e Josué Pellegrini publicaram no Estadão um plano de ajuste para gerar superávit primário de 2% do PIB em quatro anos. A divisão: um terço via receita, dois terços via despesa.

  • Receita: corte linear de 23,5% nos gastos tributários (ex.: dedução integral de saúde no IRPF).
  • Despesa: desvincular piso da previdência e benefícios sociais do salário mínimo; indexar pisos constitucionais de saúde e educação pelo mesmo parâmetro do arcabouço fiscal.

Essas duas medidas atacam o crescimento do gasto primário obrigatório — condição necessária para abrir espaço a juros reais menores.

Por que juros reais não caem sem controle de gasto

A taxa básica reflete o impulso de demanda do setor público sobre a oferta de bens e serviços. Quando o gasto primário cresce acima do potencial da economia, o governo injeta demanda mais rápido do que a capacidade produtiva responde. O Banco Central reage subindo juros.

Mesmo com superávit de 2% do PIB, se a despesa obrigatória seguir acelerando, o juro real permanece elevado e a dinâmica da dívida não se estabiliza.

O que observar daqui para frente

Faltando uma semana para o primeiro turno, o debate público gira em torno de escândalo bancário, decisões do STF e simbologias religiosas. O conflito distributivo real — quem paga a conta do ajuste e como ele é desenhado — segue fora da pauta dos candidatos.

Para o investidor e o empresário, os sinais a monitorar são claros: ritmo de crescimento do gasto obrigatório nas peças orçamentárias, posição do próximo governo sobre desindexação de pisos e disposição política para mexer em gastos tributários. Sem movimento nesses três vetores, a trajetória de 4% ao ano na dívida deixa de ser projeção e vira baseline.