Tecnologia

Europa troca Big Tech por código aberto: o que o Brasil esqueceu

Bandeira da UE sobre código aberto substituindo logos Big Tech, simbolizando soberania digital francesa
França lidera migração europeia para software livre na administração pública até 2026

A França determinou que todos os ministérios apresentem até novembro planos para eliminar dependência de softwares privados estrangeiros. A medida marca a guinada europeia de 2026: o continente que regulava tecnologia alheia agora constrói a própria infraestrutura digital.

O movimento tem nome, endereço e números. O portal lasuite.numerique.gouv.fr concentra alternativas abertas testadas e viáveis para as ferramentas que rodam a administração pública. Não é piloto. É política de Estado.

O que está sendo substituído — e quanto custa ficar parado

A lista de trocas já em execução revela a escala da operação:

  • Teams e Zoom → Visio (videoconferência)
  • WhatsApp e Slack → Tchap (mensageria oficial, 600 mil servidores ativos)
  • Google Docs → Docs (colaboração em documento, parceria franco-alemã)
  • Excel → Grist (planilhas colaborativas)

Como o código é aberto, qualquer órgão ou empresa instala sua cópia sem pagar licença. Só com o Visio, o governo francês projeta economia de € 1 milhão por ano (cerca de R$ 5,9 milhões) para cada 100 mil usuários. Multiplique pela máquina pública e a conta muda de patamar.

Relato de quem fez a transição na prática

O consultor Samuel Berthelot documentou a migração completa de sua equipe. Os resultados contrariam o senso comum de que aberto significa “precário” ou “difícil”:

  • Sincronização com OpenCloud 10 a 20 vezes mais rápida que as soluções proprietárias anteriores
  • Custo marginal zero para adicionar novos usuários — sem taxas por assento
  • Fim dos silos: aplicações conversam entre si nativamente
  • Retorno de investimento visível no primeiro ciclo orçamentário

Berthelot admite atritos: “Será necessário em alguns casos renunciar a hábitos de uso enraizados”. Mas conclui que a empreitada vale a pena para construir infraestrutura “independente e resiliente”. A hora, diz ele, “não é mais de reflexão, mas de ação”.

O espelho brasileiro: fomos líderes, viramos espectadores

A ironia dói. Nos anos 2000, o Brasil era o epicentro global do software livre. Construímos o Portal do Software Público com estratégia idêntica à europeia de hoje. Recebíamos em Porto Alegre a maior conferência de código aberto do planeta, atraindo a elite da programação mundial.

O portal continua no ar. Paralisado desde 2018. Sem ambição estruturante.

Enquanto a Europa copia o Brasil do passado, o Brasil de hoje copia a Europa do passado — regulando plataformas alheias em vez de erguer alternativas próprias.

O que observar daqui para frente

Três marcos separam o “já era” do “já vem”:

  • Já era — achar que software aberto é utopia ideológica
  • Já é — comprovar viabilidade técnica e econômica em escala de Estado-nação
  • Já vem — a janela para repensar a arquitetura de software do país antes que a dependência trave a soberania digital

A experiência francesa prova que a transição é progressiva, mensurável e reversível apenas no discurso. Cada ministério francês tem prazo até novembro. O relógio brasileiro, por enquanto, segue parado em 2018.