O IBGE confirmou deflação de 0,32% em agosto, yet a pesquisa Quaest revela que 66% dos eleitores sentiram o supermercado mais caro no mesmo período. Essa fratura entre o índice oficial e a percepção real não é um erro estatístico: ela define o cenário que empresários e investidores vão enfrentar nos próximos trimestres.
O abismo entre o índice e a percepção
O conceito que explica esse descompasso chama-se affordability (capacidade de pagamento). Mesmo com a renda do trabalho em nível recorde e o desemprego na mínima histórica, o poder de compra efetivo encolheu. A inflação acumulada nos últimos anos embutiu custos fixos — aluguel, energia, transporte — que não recuam com a queda pontual do IPCA.
Enquanto a cesta do IBGE mede a variação marginal de preços, o orçamento familiar carrega o peso da alta acumulada. O resultado é uma sensação de aperto que nenhum dado agregado de crescimento do PIB consegue mascarar.
Os números que o mercado comemora (e o que eles escondem)
Do lado positivo, a economia surpreende sistematicamente as projeções do Boletim Focus:
- Crescimento: PIB acima das expectativas dos analistas ano a ano.
- Mercado de trabalho: Desocupação na menor marca da série histórica.
- Renda: Massa salarial real em pico histórico.
- Inflação: Dentro do teto da meta estabelecida pelo CMN.
Esses indicadores sustentam a tese de um “pouso suave” e justificam a manutenção de prêmios de risco em ativos locais. Mas a foto completa exige olhar o passivo.
A armadilha do endividamento recorde
A dívida pública federal rompeu a barreira dos R$ 10 trilhões, equivalendo a mais de 82% do PIB. O custo de carregamento dessa dívida consome parcela crescente do Orçamento, pressionando a curva de juros futuros.
No setor privado, o quadro é simétrico: 82% das famílias brasileiras estão endividadas, patamar inédito. Com a Selic mantendo o Brasil no posto de maior juro real do mundo, o serviço da dívida drena a renda extra gerada pelo mercado de trabalho aquecido. O ciclo virtuoso de emprego e renda esbarra no custo do dinheiro.
O que é “affordability” e por que ela importa agora
Especialistas ouvidos em análises recentes — incluindo ex-dirigentes do Banco Central e pesquisadores de instituições como Insper, Peterson Institute e FMI — convergem: o diagnóstico da economia brasileira deixou de ser apenas sobre inflação ou PIB. A variável central virou affordability.
Significa medir se a renda disponível, após juros e custos fixos obrigatórios, permite consumo e investimento. A resposta atual é negativa para a maior parte das famílias e para pequenas empresas dependentes de capital de giro. Isso trava a demanda agregada mesmo com emprego cheio.
O horizonte político: promessas sem detalhes
As pesquisas de intenção de voto para 2026 já mostram polarização numérica (cenário testa nomes como Lula com 37% e Flávio Bolsonaro com 33% em levantamento Quaest de primeiro turno). Todos os presidenciáveis projetados defendem “contas em ordem” para baixar juros.
O problema é a ausência de especificidade operacional. Nenhum dos principais nomes detalhou como equacionar a trajetória da dívida sem choque recessivo ou aumento de carga tributária. O debate fiscal segue no campo retórico, longe da engenharia orçamentária necessária.
O que monitorar daqui para frente
Para quem aloca capital ou gere negócios, três variáveis ditam o ritmo nos próximos meses:
- Trajetória da dívida/PIB: Estabilização ou queda sustentada exige superávit primário consistente — hoje inexistente.
- Taxa de poupança das famílias: Recuperação depende da queda do comprometimento de renda com juros.
- Credibilidade do arcabouço fiscal: Regras claras de contingenciamento e gatilhos de despesa reduzem o prêmio de risco na curva longa.
Enquanto o tripé crescimento-renda-emprego não conviver com dívida-juros-affordability, a sensação de “bolso vazio” persistirá — independentemente do que diga o IPCA do mês.
