Ciência

O segredo que ninguém conta sobre a viagem de 8 anos a Mercúrio…

Sonda BepiColombo da ESA/JAXA aproximando-se de Mercúrio com painéis solares estendidos
A missão BepiColombo chega a Mercúrio em 2026 após jornada de 8 anos e recuperação técnica inédita.

A missão BepiColombo finalmente se prepara para entrar em órbita de Mercúrio em novembro de 2026, após uma jornada de oito anos e um susto técnico que quase encerrou o projeto.

O que parecia uma falha fatal em abril de 2024 virou um caso raro de recuperação orbital: engenheiros da ESA reprogramaram a trajetória usando apenas propulsão parcial, salvando a missão com 11 meses de atraso.

Uma missão “três em um” que desafia a física

Lançada em 2018 por um foguete Ariane 5, a BepiColombo não é uma sonda única. É um pacote empilhado de três espaçonaves com funções distintas:

  • MTM (Módulo de Transferência): o “trator” que empurrou o conjunto até Mercúrio — já descartado em setembro de 2024
  • MPO (Orbitador Planetário): missão da ESA para mapear superfície e interior
  • Mio (Orbitador Magnetosférico): missão da JAXA para estudar o campo magnético

O investimento total beira US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,4 bilhões), tornando esta a empreitada mais ambiciosa já dirigida ao menor planeta do Sistema Solar.

Por que demora tanto para “cair” em direção ao Sol?

Mercúrio está a 58 milhões de km do Sol — distância similar à de Marte. Mas ir “para baixo” no poço gravitacional solar exige mais energia do que ir para fora.

A sonda precisa perder velocidade orbital da Terra (30 km/s) para ser capturada por Mercúrio. Foguetes não têm combustível suficiente. A solução: nove sobrevoos gravitacionais (Terra, Vênus e o próprio Mercúrio) para frear naturalmente.

Foi essa dança orbital que estendeu a viagem a oito anos. A estratégia foi idealizada pelo matemático italiano Giuseppe “Bepi” Colombo nos anos 1970, para a Mariner 10.

O cronograma final: o que acontece nos próximos 18 meses

Após o último ajuste de trajetória em 24 de outubro de 2024, o duo MPO+Mio entra em órbita elíptica de 60 horas em 21 de novembro de 2026. A partir daí:

  • Dezembro 2026: propulsão elétrica reduz período para 9,3 horas; Mio se separa e inicia fase científica
  • Março 2027: MPO atinge órbita final de ~2 horas para observação próxima
  • Mínimo 1 ano: duração nominal da missão científica (extensível para 2)

O que a ciência espera descobrir — e por que importa

Mercúrio parece a Lua, mas esconde anomalias que desafiam modelos de formação planetária:

  • Densidade anômala: núcleo de ferro ocupa 85% do raio planetário
  • Campo magnético ativo: único planeta rochoso além da Terra com dínamo interno
  • Exosfera única: átomos arrancados da superfície pelo vento solar
  • Teste de relatividade: precisão orbital permite medir desvios einsteinianos

As respostas podem reescrever a história da formação dos planetas rochosos — inclusive a Terra.

O que observar daqui para frente

A inserção orbital de novembro de 2026 é o próximo marco crítico. Se a frenagem elétrica falhar, o duo passa direto pelo planeta. Após a separação do Mio em dezembro, a operação independente das duas sondas eliminará risco de ponto único de falha. Cientistas já preparam campanhas de observação coordenada com telescópios terrestres para validar dados da exosfera. Para quem acompanha exploração espacial, os próximos 18 meses definem se o investimento bilionário vira ciência de fronteira — ou mais um objeto caro em órbita solar inútil.