Aos 15 anos, Ada Jamile Gomes de Oliveira transformou o diagnóstico de câncer da tia em um algoritmo registrado no INPI. Hoje, aos 18, a estudante de Manaus inicia a graduação em biologia computacional na Universidade Columbia, nos EUA — uma das dez mais prestigiadas do mundo.
O ponto de virada não veio de um laboratório de ponta, mas de um sentimento de impotência familiar. O que começou como resposta pessoal virou ferramenta de pesquisa internacional.
O diagnóstico que virou código
No primeiro ano do ensino médio, a tia Francisca recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Ada, então com 15 anos, não tinha formação médica, mas tinha acesso a Python — linguagem que o professor Roberto Barbosa, do Colégio Militar de Manaus, lhe apresentou.
“Foi um momento mágico, como se um novo mundo tivesse se aberto”, descreve a estudante. A programação virou ponte entre a biologia que ela amava e a vontade de agir.
Com amigas, desenvolveu o projeto Minerva. O coração da ferramenta: um algoritmo de busca “proteína-composto” capaz de rastrear moléculas com potencial terapêutico. O código foi registrado no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual antes mesmo de ela completar 16 anos.
Da sala de aula para a ciência real
O professor Barbosa integrava uma rede ligada à Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD). O algoritmo de Ada virou referência para outra ferramenta dos pesquisadores americanos — prova de que projetos de ensino médio podem alimentar ciência de fronteira.
“Me mostrou que o que a gente faz aqui influencia gente lá fora”, resume.
O reconhecimento veio em forma de prêmio: Ada tornou-se a primeira amazonense premiada na ISEF (Feira Internacional de Ciências e Engenharia), a maior competição pré-universitária do mundo.
Alzheimer, ondas sonoras e um achado inesperado
O câncer abriu portas para outra frente: Alzheimer. Ada investigou ondas binaurais a 12 Hz — frequência presente no sono profundo — como terapia não invasiva.
O efeito esperado não se confirmou. Mas os genes responderam ao estímulo sonoro reduzindo sua expressão gênica, um achado que a própria pesquisadora chama de “ainda mais interessante”.
Dados do projeto:
- Algoritmo registrado no INPI aos 15 anos
- Primeira amazonense premiada na ISEF
- Pesquisa em Alzheimer com frequência de 12 Hz
- Ingresso em Columbia para biologia computacional
A Amazônia como lente científica
Ser do Norte não é detalhe biográfico — é variável de projeto. “A logística na região é muito particular. Quando penso em soluções tecnológicas, sempre levo isso em conta”, explica Ada.
Essa visão ganhou peso na preparação para o exterior. No oitavo ano, conheceu a Fundação Estudar por meio de uma colega mais velha. O programa, gratuito para estudantes do penúltimo e último ano do ensino médio com alto desempenho acadêmico e inglês fluente, oferece mentoria para aplicação em universidades globais — incluindo bolsas para custear o processo seletivo quando há necessidade financeira.
As inscrições para a turma de 2027 encerram em 1º de agosto no site da instituição.
O equilíbrio que ninguém ensina no currículo
A ida para Nova York marca também uma virada pessoal. Períodos de cansaço extremo forçaram Ada a redesenhar a relação com o trabalho.
“Por muito tempo, foi difícil nutrir a Ada que existe além da pesquisa. Hoje, tenho orgulho não só do que faço, mas da pessoa que venho me tornando. A parte mais difícil foi entender que eu não sou só quem eu sou no meio acadêmico”, afirma.
O que observar daqui pra frente
A trajetória de Ada expõe um padrão: jovens pesquisadores brasileiros acessando redes globais ainda no ensino médio, com propriedade intelectual registrada e publicações em feiras internacionais. O diferencial não é apenas talento — é infraestrutura de mentoria (como a Fundação Estudar) e professores que conectam sala de aula a laboratórios reais.
Para quem atua em educação, inovação ou captação de talentos, o recado é claro: o próximo algoritmo pode sair de uma escola pública em Manaus. A condição é existir quem ensine Python aos 14 anos e quem oriente a transformar dor pessoal em pergunta científica.
O prazo para a turma 2027 da Fundação Estudar termina dia 1º. Estudantes com perfil compatível — e gestores que os cercam — fariam bem em acompanhar.
