A trajetória da dívida pública brasileira está prestes a mudar de patamar — e para pior. No atual mandato, o endividamento cresce 2,8% do PIB ao ano; sem ajuste adicional, o próximo quadriênio eleva esse ritmo para mais de 4% anuais. A conta chega justamente quando a economia perde fôlego.
Três forças combinadas explicam a aceleração. Entender cada uma é essencial para quem precifica risco ou planeja investimentos no país.
O trio que empurra a dívida para cima
O primeiro fator é o ponto de partida: a dívida bruta fechará 2026 cerca de 12 pontos percentuais do PIB acima do nível de 2022. O segundo é o custo do dinheiro. Grande parte do estoque foi contratada durante a pandemia, com juros reais negativos. Esse passivo venceu e foi rolado nas taxas atuais, substancialmente mais altas. O terceiro pilar é o denominador: o PIB crescerá menos nos próximos quatro anos.
Essa combinação — estoque maior, juros mais caros e denominador mais fraco — cria uma dinâmica explosiva que o arcabouço fiscal atual, sozinho, não consegue conter.
Por que o crescimento passado enganou
Economistas subestimaram sistematicamente o PIB entre 2022 e 2025. Erram também na taxa de desemprego: ninguém projetava a queda de 8,5% para 5,5%. A surpresa foi positiva no emprego, mas revelou um detalhe perigoso: o crescimento foi extensivo, não intensivo. Avançamos reduzindo ociosidade, não elevando produtividade.
Com o desemprego já em 5,5%, não há espaço para repetir a dose. A taxa não cairá para 2,5%; a tendência é de estabilidade ou leve alta. Sem o “motor” da absorção de mão de obra ociosa, o PIB potencial freia.
A proposta na mesa: 2% de superávit em quatro anos
Em artigo n’O Estado de S. Paulo, Felipe Salto e Josué Pellegrini desenharam um ajuste para gerar superávit primário de 2% do PIB em quatro anos. A divisão: um terço via receita, dois terços via despesa. Veja os pilares:
- Receita: corte linear de 23,5% nos gastos tributários (ex.: dedução integral de saúde no IRPF).
- Despesa: desvincular piso da previdência e benefícios sociais do salário mínimo.
- Regra: indexar pisos constitucionais de saúde e educação pelo mesmo parâmetro do arcabouço fiscal.
Sem essas duas últimas medidas, o gasto primário obrigatório continua crescendo acima da regra fiscal. E, se o gasto obrigatório não desacelera, o juro real não cai.
A mecânica dos juros e o risco fiscal
A taxa Selic reflete o desequilíbrio entre oferta e demanda que o setor público injeta na economia. Quando o gasto primário acelera acima do potencial produtivo, o Banco Central é forçado a subir juros para conter a inflação. Portanto, conter a despesa obrigatória é pré-condição para derrubar a taxa estrutural de juros — e, só assim, estabilizar a dívida mesmo com superávit de 2%.
O vazio político a uma semana da eleição
Enquanto o debate público gira em torno de escândalos bancários, decisões do STF e simbolismos religiosos, o conflito distributivo real — quem paga a conta do ajuste — segue ignorado. A discussão sobre receitas e despesas do Tesouro Nacional está ausente das urnas.
Para o investidor e o gestor, o sinal é claro: a janela para ajuste gradual está fechando. A velocidade da dívida no próximo mandato dependerá menos do arcabouço e mais da disposição política para mexer em indexadores e benefícios tributários.
O que observar daqui para frente
Três indicadores dirão se o cenário base se confirma ou se o risco de cauda se materializa: (1) tramitação de PECs que desindexam benefícios do salário mínimo; (2) regulamentação da reforma tributária e seu impacto nos gastos tributários; (3) sinalização do próximo governo sobre meta de superávit primário para 2027. A aritmética não espera calendário eleitoral.
