Economia

Mercosul e Efta: acordo histórico abre mercado de 290 milhões de consumidores

Lula assina acordo Mercosul-EFTA criando mercado de 290 milhões consumidores e PIB US$4,3 trilhões
Presidente Lula promulga tratado histórico entre Mercosul e EFTA eliminando 97% das tarifas comerciais.

O presidente Lula promulgou, nesta sexta-feira (25), o tratado de livre comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), selando uma parceria que elimina tarifas para mais de 97% das trocas comerciais entre os blocos. A medida entra em vigor num momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimento e coloca o Brasil no centro de uma área econômica com PIB combinado de US$ 4,3 trilhões. O que muda, na prática, para quem exporta ou importa?

O mapa do novo corredor comercial

O acordo conecta dois polos de alta renda. De um lado, o Mercosul — Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai — soma 275 milhões de habitantes. Do outro, a Efta reúne Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça: 15 milhões de pessoas com um PIB per capita entre os maiores do planeta, totalizando US$ 1,4 trilhão em riqueza anual.

A assimetria é o ponto-chave. Enquanto o bloco europeu zera 100% das tarifas industriais e pesqueiras imediatamente, o Mercosul adota uma abertura gradual: 97% dos itens ficam livres de imposto, com 1,2% sujeitos a cotas e preferências fixas. Essa calibragem protege setores sensíveis sul-americanos sem travar o fluxo majoritário.

Impacto direto no balanço das empresas

Para o empresário brasileiro, a leitura imediata é redução de custo e previsibilidade. A eliminação de barreiras tarifárias atinge em cheio a indústria de transformação e o agronegócio, dois pilares da pauta exportadora nacional. Setores como autopeças, químicos, máquinas e equipamentos ganham competitividade de preço frente a concorrentes de fora do acordo.

Do lado importador, a entrada de insumos e bens de capital europeus mais baratos pressiona a cadeia produtiva local a ganhar eficiência. É um choque de oferta que pode baixar o custo de produção interna, desde que a logística e a burocracia aduaneira acompanhem a velocidade do papel.

  • Indústria: tarifa zero para 100% dos produtos industriais e pesqueiros da Efta.
  • Agro: abertura para 97% da pauta, com cotas específicas para itens sensíveis.
  • Serviços e investimentos: regras de origem claras facilitam a integração de cadeias de valor.

Por que a Efta importa mais do que parece

Muita gente confunde a Efta com a União Europeia. O bloco negociado agora é menor em população, mas gigante em poder de compra. Noruega e Suíça são hubs globais de finanças, tecnologia e energia. O acordo abre portas não só para vender commodities, mas para atrair capital de risco, joint ventures em energia verde e parcerias em defesa e telecomunicações.

Além disso, as regras de origem acumulada permitem que insumos de um país do bloco sejam processados em outro sem perder o benefício tarifário. Isso viabiliza a montagem de plataformas de exportação regionais — uma fábrica no Uruguai usando aço brasileiro e tecnologia suíça, por exemplo, vende para Oslo como produto “do acordo”.

O cronograma que o gestor precisa decorar

A promulgação é o ato político final no Brasil, mas a entrada em vigor prática depende da ratificação pelos parlamentos de todos os nove países signatários. A expectativa do Itamaraty é que as primeiras reduções tarifárias comecem a valer ainda no segundo semestre de 2025, caso o calendário legislativo não trave na Argentina ou no Paraguai.

Enquanto o tratado não vigora plenamente, as alíquotas atuais permanecem. O segredo é mapear agora quais NCMs (códigos de mercadoria) da sua empresa entram nas listas de eliminação imediata, desgravação linear ou cotas. Quem fizer esse dever de casa sai na frente na precificação de contratos de longo prazo.

O que observar daqui para frente

O acordo Mercosul-Efta funciona como um “piloto” para o grande elefante na sala: o acordo com a União Europeia, travado há anos por questões ambientais e agrícolas. Se a implementação com os quatro países europeus fluir sem ruídos diplomáticos, cria-se um precedente de confiança regulatória.

Para o investidor, o sinal é de abertura estrutural, não conjuntural. Vale monitorar a publicação dos decretos de execução tarifária no Diário Oficial da União e as resoluções do Comitê de Comércio do Mercosul. A janela para adequar supply chains e contratos de fornecimento está aberta agora — antes da concorrência acordar para o novo mapa.