Economia

O segredo do ajuste fiscal: quem paga a conta (e não é o pobre)

Balança da justiça fiscal com pesos desiguais: privilégios no topo e sacrifícios na base
Ilustração mostra que o ajuste fiscal justo exige cortar privilégios dos mais ricos antes de onerar os pobres.

O Brasil precisa de um ajuste estrutural de 3% do PIB nos próximos anos para estabilizar a dívida. A conta do adiamento, no entanto, já está sendo cobrada na forma de juros altos, inflação e serviços públicos deteriorados — e quem paga primeiro são os mais pobres.

Mas existe um caminho onde o esforço não recai sobre quem menos pode se defender. A solução passa por uma ordem inversa à habitual: cortar privilégios no topo antes de pedir sacrifícios na base.

O custo invisível de empurrar com a barriga

Quando o governo gasta mais do que arrecada sistematicamente, a dívida explode e os juros sobem. O crédito fica caro, as empresas travam investimentos e contratações. O resultado volta para a população como inflação, mais impostos ou atendimento precário em saúde e educação.

Essa desorganização fiscal funciona como um imposto regressivo, sem lei e sem debate. Quem tem menos reserva financeira sofre mais com a alta dos preços, paga juros abusivos no rotativo e depende exclusivamente do Estado para serviços básicos.

O cenário externo agrava a urgência. Com economias desenvolvidas endividadas, o custo do capital global sobe e países emergentes ficam expostos. O Brasil precisa liberar a poupança privada hoje consumida pelo setor público.

A matemática dos 3% do PIB: fato, não opinião

Experiências no Tesouro Nacional mostram que orçamento sem folga corta o que é fácil de paralisar — obras, equipamentos, manutenção —, raramente o que é ineficiente. Espaço fiscal protege o serviço público da improvisação.

Se a trajetória da dívida for crível, o prêmio de risco cai. Com inflação controlada, abre-se espaço para juros estruturalmente menores. Na prática, isso significa financiamento de longo prazo para empresas, projetos saindo do papel e geração de empregos com salários mais protegidos.

A ordem dos fatores muda o resultado: comece pelo topo

Um ajuste sustentável não nasce do corte linear. Ele exige uma hierarquia clara de prioridades antes de qualquer votação no Congresso:

  • Enfrentar privilégios: supersalários, subsídios sem contrapartida e benefícios tributários nunca avaliados.
  • Revisar regras automáticas: despesas obrigatórias que crescem acima da renda nacional.
  • Proteger o piso: programas de transferência de renda, saúde básica e educação infantil intocáveis.
  • Exigir resultado: cada política deve responder quem recebe, quanto custa e que resultado produz.

Eliminar privilégios sozinho não resolve os 3% do PIB, mas define a legitimidade do esforço. Sem justiça percebida, a sociedade rejeita o sacrifício.

O jogo político: Congresso, credibilidade e compensações

Não há “bala de prata”. Credibilidade não nasce de um número ambicioso no papel, mas da qualidade das medidas, da maioria política para aprová-las e da preservação do resultado final. Toda flexibilização negociada precisa ter compensação financeira imediata.

Um programa crível apresenta o pacote completo — prioridades, cronograma e alternativas — desde o início. Depender da aprovação integral de um texto único é receita para fracasso; ter medidas alternativas permite manter a meta mesmo se o Congresso alterar partes.

O que observar daqui para frente

O sinal decisivo virá da execução orçamentária dos próximos trimestres. Acompanhe se o governo consegue contingenciar emendas parlamentares e “penduricalhos” com a mesma força que aplica a investimentos. Observe também a tramitação da reforma administrativa e da revisão de benefícios tributários: são elas que determinam se o ajuste ataca a estrutura do gasto ou apenas maquia o deficit do ano.

Se a regra for “proteger o pobre e cobrar do privilegiado”, o ajuste deixa de ser ameaça e vira ativo para quem produz e para quem precisa do Estado. Caso contrário, a conta virá — como sempre — na forma de juros altos e serviços ruins para quem não tem como se blindar.