A picanha acumula alta de 7,8% nos primeiros 44 meses do terceiro mandato Lula. No período equivalente da gestão anterior, o mesmo corte havia disparado 33,4%. A diferença expõe um cenário que vai além da polarização política: a oferta recorde de boi gordo está contendo a inflação, mas o bolso do consumidor ainda sente o peso de um patamar de preços histórico.
Dados do IPCA compilados pelo economista Fábio Romão, da 4intelligence, mostram que a alimentação no domicílio subiu 12,9% de janeiro de 2023 a agosto de 2026. Nos 44 meses iniciais do governo Bolsonaro, a alta foi de 54,2%. O abate de bovinos bateu 42,9 milhões de cabeças em 2025 — recorde da série histórica iniciada em 1997 —, aliviando a pressão sobre as gôndolas.
Por que o churrasco continua caro mesmo com inflação menor
O ritmo desacelerou, mas o ponto de partida já era elevado. Em agosto de 2026, o quilo dos cortes de primeira custava R$ 50,49 na capital paulista, segundo Procon-SP e Dieese. Em agosto de 2019, antes da pandemia, o mesmo quilo saía por R$ 23,61. A variação nominal de 114% em sete anos explica o mal-estar: a inflação atual incide sobre uma base que já comprimia orçamentos.
O economista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, aponta dois vetores. De um lado, a oferta abundante — o Brasil ultrapassou os EUA e virou o maior produtor mundial de carne bovina em 2025. Do outro, o endividamento das famílias trava repasses mais agressivos. “O brasileiro não consegue absorver as altas. Migra para frango, suínos, ovos”, resume.
O consumo está mudando de forma estrutural
- Consumo per capita de carne bovina: 24,94 kg (2021) → 30,79 kg (2024) → projecão de 28,08 kg (2026)
- Proteínas alternativas ganham espaço: frango, suínos e ovos absorvem a demanda sensível a preço
- Cortes traseiros (picanha, alcatra, maminha, filé mignon) mantêm inflação persistente
Essa substituição não é temporária. O ciclo pecuário está virando: a retenção de fêmeas para reprodução deve reduzir a oferta de abate nos próximos trimestres. Isso tende a sustentar os preços dos cortes nobres mesmo com a inflação geral comportada.
Cerveja e o risco climático no radar
A cerveja, também citada na promessa de campanha de 2022, acumula 19,5% de alta no governo Lula — praticamente idêntico aos 19,2% do período equivalente na gestão anterior. O comportamento espelha a dinâmica de commodities e câmbio, menos sensível ao ciclo do boi.
O principal risco para o final de 2026 é o El Niño. A alteração no regime de chuvas pode comprometer pastagens e lavouras de milho e soja, pressionando o custo da alimentação animal e, em cascata, o preço final da proteína.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o preço do churrasco nos próximos 12 meses: (1) a velocidade da inversão do ciclo pecuário, com redução de fêmeas no abate; (2) a intensidade do El Niño sobre a safra de grãos 2026/27; (3) a capacidade de renda das famílias de sustentar a demanda por cortes de maior valor. O recorde de produção atual não garante teto para os preços — apenas adia o ajuste.
