O governo federal lançou a terceira fase do Desenrola com uma mecânica inédita: a União passa a comprar carteiras de dívidas em leilão e repassa integralmente o desconto obtido ao devedor. O teto de abatimento começa em 90% e pode chegar a 15 milhões de brasileiros.
A medida provisória foi assinada nesta sexta-feira (25) em São Paulo. Diferente das edições anteriores, o Estado não apenas media a renegociação — ele entra como comprador direto dos créditos podres.
Como funciona o leilão reverso
Credores — bancos, varejistas, concessionárias de água e luz — ofertam lotes de dívidas com o maior deságio que aceitam. Vence quem der o maior desconto. A União arremata, assume o crédito e transfere o mesmo percentual de abatimento para o consumidor final.
Só entram no certame débitos entre R$ 10 mil (valor original) com inadimplência de 720 a 1.645 dias — aproximadamente dois a quatro anos e meio de atraso. A estimativa oficial aponta R$ 150 bilhões em carteiras elegíveis, dos quais R$ 75 bilhões devem ser efetivamente renegociados.
O orçamento reservado à operação é de R$ 15 bilhões. Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil atuarão como agentes operadores, inclusive via fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) com participação da União.
Quem pode ser beneficiado
O perfil do público-alvo é amplo. Dados do Tesouro Nacional de agosto mostram 83,9 milhões de pessoas com o nome negativado, cada uma com média de quatro dívidas e saldo médio de R$ 7 mil. O estoque total de inadimplência até cinco anos soma R$ 592 bilhões.
Cerca de 55% desse volume vem de dívidas não bancárias: contas de água, luz, telefone e varejo. Só serviços essenciais (água, luz, energia) respondem por 20% do total. Isso significa que o programa atinge muito além do crédito bancário tradicional.
- Dívidas bancárias e não bancárias até R$ 10 mil originais
- Atraso entre 720 e 1.645 dias (2 a 4,5 anos)
- Desconto mínimo de 90% repassado integralmente
- Quitação à vista ou parcelada (juros a definir pelo CMN)
- Credor entrega todo o pacote do devedor — sem cherry-picking
Cronograma: o que acontece nos próximos meses
Setembro de 2026 já marcou a publicação da MP, que altera a Lei nº 14.690/2023. O calendário oficial prevê as próximas etapas:
- Novembro/2026: publicação do edital de chamamento para credores
- Dezembro/2026: entrega das propostas com os deságios ofertados
- Janeiro/2027: homologação dos lotes vencedores
- Fevereiro/2027: assinatura dos contratos e início do repasse dos descontos aos devedores
Mas o efeito mais relevante aparece no balanço das duas fases anteriores. Juntas, somaram 25 milhões de pessoas atendidas, 13,5 milhões de operações e R$ 75 bilhões em dívidas renegociadas. A expectativa agora é superar esse volume em uma única etapa.
O que observar daqui para frente
A adesão dos credores será o termômetro real. Grandes bancos já possuem estrutura de recuperação própria e podem ofertar deságios menores. Já varejistas e concessionárias, com carteiras mais envelhecidas e custo de cobrança alto, tendem a aceitar cortes agressivos — o que beneficia o devedor final.
Outro ponto crítico: a definição dos juros para parcelamento pelo Conselho Monetário Nacional. Se a taxa ficar atrelada à Selic, o custo final ao consumidor pode reduzir o atrativo do desconto inicial. Acompanhe a regulamentação nas próximas semanas.
Para empresários e investidores, o movimento sinaliza duas coisas: o governo aposta na limpeza do cadastro de crédito como motor de consumo, e a estrutura via FIDCs abre precedente para futuras intervenções de mercado secundário de crédito podre. Quem atua em securitização ou cobrança deve monitorar os editais de novembro — eles ditarão o preço de referência para carteiras semelhantes nos próximos anos.
