O Orçamento de 2026 prevê R$ 2,7 trilhões em despesas da União — o maior volume desde 2020, ano do pico pandêmico. O número não é apenas uma linha em planilha: ele define quanto sobra para investimento, pressiona a taxa de juros e redesenha o custo de crédito para empresas e famílias.
Em ano eleitoral, a expansão vem turbinada por benefícios sociais e reajustes de servidor. A dúvida que fica: o crescimento da receita acompanha o ritmo da despesa ou o déficit volta a assombrar o mercado?
O que está por trás do recorde
O teto de gastos foi substituído pelo novo arcabouço fiscal em 2023, mas a regra de crescimento real da despesa (até 2,5% ao ano acima da inflação) convive com pressões obrigatórias. Previdência, pessoal e benefícios indexados ao salário-mínimo consomem fatia crescente do bolo.
Para 2026, três vetores empurram o total para cima:
- Reajuste do salário-mínimo: impacto cascata em aposentadorias, BPC e abono salarial.
- Recomposição salarial do funcionalismo: acordos fechados em 2024 e 2025 têm efeito cheio no exercício seguinte.
- Expansão de programas sociais: Bolsa Família, Pé-de-Meia e novas linhas de crédito subsidiado.
Juntos, esses itens explicam a maior parte da variação nominal. O espaço discricionário — obras, máquinas, inovação — segue comprimido.
Impacto direto no custo de capital
Quando a despesa cresce acima da receita estrutural, o Tesouro emite mais títulos para fechar a conta. Isso eleva o prêmio de risco na curva de juros futuros. Para o empresário, o reflexo imediato aparece no custo do capital de giro e no financiamento de longo prazo.
O Banco Central já sinalizou que a política monetária permanecerá restritiva enquanto a dinâmica fiscal não mostrar trajetória crível de estabilização da dívida. Em termos práticos: a Selic alta por mais tempo.
Receita: o lado que ninguém controla totalmente
A equipe econômica projeta arrecadação recorde, ancorada em:
- Reoneração gradual da folha de pagamentos.
- Medidas de combate a litigiosidade tributária (transação, voto de qualidade no Carf).
- Crescimento do PIB nominal acima de 5%.
Mas a elasticidade da receita ao PIB caiu nos últimos anos. Cada 1% de crescimento real gera menos arrecadação adicional do que no passado, o que torna a meta de superávit primário sensível a frustrações de atividade.
Cenários para o segundo semestre
Três variáveis definirão se o ano fecha no azul ou no vermelho:
- Desempenho da agroindústria: safra cheia garante divisas e recolhimento de tributos federais.
- Judicialização da reforma tributária: decisões do STF sobre transição do IBS/CBS podem travar receitas.
- Execução orçamentária de emendas: pagamento de emendas de comissão e impositivas costuma acelerar no 3º trimestre.
O mercado monitora o Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas. O próximo, em julho, trará o primeiro diagnóstico pós-primeiro semestre.
O que observar daqui pra frente
Para quem gere caixa ou planeja investimentos, três indicadores merecem acompanhamento semanal: (1) curva DI x IPCA para prazos 2027-2029; (2) fluxo cambial líquido, termômetro da confiança externa no fiscal; (3) execução de restos a pagar, que revela se a despesa contratada vira pagamento real. A combinação desses sinais antecipa o ambiente de crédito muito antes do anúncio oficial do próximo Orçamento.
