A Argentina eliminou 31,3 mil empresas e 245 mil empregos formais nos primeiros 31 meses da gestão Javier Milei. O número de companhias ativas recuou 6,1%, um tombo equivalente ao registrado durante a pandemia. Mas a conta não para no fechamento de portas: a indústria encolhe e o desemprego real avança, mascarado por uma explosão de trabalho autônomo sem proteção.
Enquanto a inflação desaba de 289% para 33,5% ao ano, o setor produtivo paga a fatura. Entender essa dinâmica é essencial para quem opera ou investe no principal parceiro comercial do Brasil na região.
O raio-X da destruição empresarial
O Monitor Mensal de Empresas, da Fundar, cobre o período de novembro de 2023 a junho de 2026. Dos 18 setores analisados, 14 encolheram. A retração atinge 23 das 24 províncias argentinas.
A exceção solitária é Neuquén. Lá, a exploração de gás em Vaca Muerta sustenta a única expansão líquida de companhias no país. No resto do território, o cenário é de retração generalizada.
Em julho, a indústria acumulou queda de 2,6% em 12 meses. O segmento de equipamentos eletrônicos e médicos lidera o tombo: menos 19,1% no mesmo período, segundo o Indec.
Marcas históricas apagadas do mapa
Não são apenas estatísticas. No último mês contabilizado, 709 empresas fecharam. Entre elas, nomes com mais de cinco décadas de história:
- Din S.A. (Grupo Govan): referência em metalurgia.
- Clan Issime: gigante têxtil que chegou a ter 129 funcionários, 14 lojas próprias e mais de cem pontos de venda terceirizados. No fim, restavam 9 trabalhadores na fábrica.
O caso Clan Issime ilustra a velocidade da erosão: de potência varejista a operação residual em poucos anos.
Emprego formal some; informalidade avança
O Centro de Economia Política Argentina (Cepa) contabiliza a perda de 245,6 mil postos formais entre novembro de 2023 e junho de 2024 — queda de 3,9% no estoque.
Parte da lacuna foi preenchida por 169 mil trabalhadores autônomos (+8,3%). O problema: a maior parte dessa ocupação nasce sem carteira assinada, sem contribuição previdenciária e sem rede de proteção.
“Os empregos perdidos são parcialmente substituídos por atividades desprotegidas”, resume o informe da Cepa.
Resultado prático: a taxa de desemprego subiu 0,3 ponto percentual no primeiro semestre de 2026 ante igual período de 2025, atingindo 7,9% da população economicamente ativa.
O paradoxo da inflação domada
A vitória inflacionária é real e impressionante. Mas, para o economista Paulo Gala (FGV-SP), ela tem pilares frágeis:
- Corte agressivo de gastos públicos.
- Empréstimos bilionários com o FMI.
- Câmbio sobrevalorizado.
O peso forte barra a alta de preços importados, mas torna a indústria argentina cara lá fora e barata cá dentro. “A moeda sobrevalorizada ajuda a controlar a inflação, só que ela detona o setor industrial”, afirma Gala. O resultado visível: contração fabril, perda de vagas industriais e crescimento perdendo fôlego.
Dívida externa e o alerta do establishment
O passivo externo de US$ 350 bilhões segue como espada de Dâmocles. Mesmo a The Economist, historicamente simpática à agenda liberal, publicou editorial crítico este mês: o país precisa de “mais crescimento e menos gritaria”. A revista aponta que salários reais ainda estão abaixo do nível de posse de Milei e que empregos formais continuam desaparecendo.
O governo rebate. Em agosto, Milei citou PIB 2025 crescendo 4,4% (após -1,3% em 2024), exportações e consumo privado em alta. “Se todas as empresas estivessem fechando, o desemprego estaria disparando”, argumentou. O presidente também mirou empresários dependentes de subsídios: “Esses capitalistas de compadrio precisam falir”.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o ajuste vira expansão sustentável ou estagnação prolongada:
- Câmbio: qualquer desvalorização ordenada ou corrida cambial reacende a inflação, mas alivia a indústria.
- Acordo com FMI: novos desembolsos e prazos alongados compram tempo; travamentos geram risco de default técnico.
- Reforma trabalhista: a judicialização das mudanças nas regras de contratação pode travar a geração de vagas formais.
Para o empresário brasileiro, o recado é claro: a Argentina ficou mais barata para importar, mas mais arriscada para produzir ou vender. Monitorar a taxa de câmbio real efetivo e o nível de atividade industrial mensal (Indec) deixou de ser opcional — virou ferramenta de gestão de risco.
