A taxa de pobreza argentina saltou para 32,3% no primeiro semestre de 2026, revertendo a trajetória de queda que havia levado o indicador a 28,2% no fim do ano anterior. O avanço de 4,1 pontos percentuais em apenas seis meses acende um alerta político: falta pouco mais de um ano para a próxima eleição presidencial.
O dado, divulgado pelo Indec nesta quinta-feira (24), mostra também que a extrema pobreza subiu de 6,3% para 7,5%. Crianças são o grupo mais exposto: 44,5% dos menores de 14 anos vivem em situação de pobreza, e 10,8% não têm o mínimo para se alimentar.
O que está por trás do retrocesso
A inflação, que parecia domada, voltou a acelerar no início do ano antes de recuar para 1,7% em agosto — menor nível em 14 meses. Analistas ouvidos pela reportagem apontam que a melhora social impulsionada apenas pela desinflação perdeu fôlego. Agora, novos avanços dependem de geração de emprego formal e recuperação real dos salários.
“A parte mais fácil da melhora já acabou”, resume Nicholas Watson, diretor da consultoria Teneo para América Latina. Segundo ele, um aumento modesto não apaga o ganho expressivo desde o pico de 52,9% registrado no primeiro semestre de 2024, logo após a desvalorização cambial de mais de 50% promovida pelo governo. Mas sinaliza que o ciclo virtuoso estancou.
Trabalho precário, não desemprego, é o motor da pobreza
O desemprego atingiu 7,9% no segundo trimestre, maior patamar desde 2021. Cerca de 30 mil empresas fecharam as portas desde o início do mandato. Ainda assim, pesquisadores do Observatório da Dívida Social da UCA enfatizam: o problema central é a precarização.
- Informalidade: famílias recorrem a “bicos” — catadores de recicláveis, vendedores ambulantes, refeições caseiras na estação de trem — para compor a renda.
- Setores atingidos: indústria e varejo lideram as demissões, pressionados pela perda de poder aquisitivo e pela abertura acelerada às importações.
- Renda real: mesmo quem trabalha não consegue cobrir a cesta básica (US$ 340) ou a cesta apenas alimentar (US$ 150).
Eduardo Donza, pesquisador da UCA, explica: “Quando as famílias passam por privações, elas precisam inventar uma ocupação. Isso não aparece nas estatísticas de desemprego, mas empurra a pobreza para cima”.
Base eleitoral de Milei dá sinais de erosão
O presidente chegou ao poder com forte apoio de eleitores de baixa e média renda, cansados de décadas de inflação crônica. A estabilização de preços e o superávit fiscal são conquistas reais. No entanto, o custo social começa a cobrar a fatura.
Pesquisa AtlasIntel de setembro revela que a desaprovação entre quem ganha até US$ 650 mensais saltou para quase 70%, ante 57% um ano antes. A aprovação nesse segmento caiu de 37% para menos de 30%. No agregado nacional, 58% desaprovam a gestão e 38,1% aprovam.
Em clubes de troca nos arredores de Buenos Aires — prática que ressurge em crises —, itens como óleo, açúcar e farinha são moeda de troca por roupas usadas. “A pobreza se agravou drasticamente”, relata Ana Barreto, professora que fundou um desses grupos em agosto.
O que observar daqui para frente
O governo sinaliza que não haverá flexibilização monetária nem aumento de gastos para agradar o eleitorado em ano pré-eleitoral. A aposta é que a disciplina fiscal atraia investimentos e, com o tempo, gere empregos de qualidade.
Para o empresário ou investidor que acompanha o caso argentino, três variáveis merecem monitoramento contínuo nos próximos trimestres: a trajetória do salário real frente à inflação, a taxa de formalização do emprego e a capacidade de o varejo e a indústria reverterem o ciclo de fechamentos. Se a pobreza estabilizar acima de 35% — projeção da UCA para o fim de 2026 —, o cálculo eleitoral de Milei ficará consideravelmente mais complexo.
