Economia

Roscoe propõe fim de multas surpresa: “Estado não pode ser carrasco”

Flávio Roscoe candidato ao governo de Minas Gerais em cooperativa de laticínios em Governador Valadares conversando com produtores rurais
Roscoe apresenta proposta de orientação prévia em vez de multas surpresa para pequenos produtores durante agenda no Leste de Minas.

O candidato ao governo de Minas Gerais, Flávio Roscoe (PL), colocou a reforma na fiscalização agropecuária no centro do debate durante agenda no Leste do estado. A promessa é substituir a punição imediata por um modelo de orientação prévia para pequenos produtores. A medida, se implementada, redesenha a relação do poder público com a base da economia rural mineira.

A declaração ocorreu nesta quinta-feira (24), durante visita a uma cooperativa de laticínios em Governador Valadares. Mas o que está por trás desse aceno ao setor primário?

A proposta que muda a relação do produtor com o Estado

O eixo central do discurso defendido pelo candidato é a inversão da lógica repressiva. Atualmente, muitos pequenos produtores recebem autuações sem aviso prévio por irregularidades sanitárias, ambientais ou documentais. Roscoe defende que o primeiro passo do Estado deve ser educativo.

“O Estado não pode ser carrasco. Ele tem que ser primeiro um orientador para que a nossa sociedade se desenvolva”, afirmou o candidato em seu discurso aos empresários e funcionários da cooperativa.

Na prática, a proposta prevê um ciclo de notificação e prazo para adequação antes da aplicação de qualquer multa. O argumento é que a grande maioria das infrações cometidas por pequenos agricultores decorre de falta de assistência técnica ou burocracia excessiva, e não de má-fé.

Por que Governador Valadares foi o palco escolhido

A escolha da cidade não foi aleatória. O município polo do Vale do Rio Doce abriga uma das bacias leiteiras mais relevantes de Minas Gerais. A cooperativa visitada processa volumes significativos diários, gerando emprego direto e renda para centenas de famílias da região.

Além do simbolismo setorial, a agenda sinaliza prioridade geográfica. O Leste mineiro concentra uma malha de pequenos e médios produtores que historicamente reclamam da distância dos centros de decisão em Belo Horizonte. O candidato almoçou no refeitório da fábrica e percorreu a linha de produção, gesto calculado para demonstrar proximidade com a rotina do trabalhador rural.

O roteiro estratégico pelo Leste e Vale do Mucuri

A agenda da quinta-feira desenhou um arco estratégico pelo interior. Após a cooperativa, o candidato seguiu para o Mercado Municipal de Governador Valadares. Lá, o foco mudou do empresariado rural para o comércio urbano e o eleitorado difuso: distribuição de material gráfico, conversas com permissionários e eleitores.

O deslocamento para Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, no período da tarde, completou a movimentação. A região, conhecida pela força do agronegócio e pela logística de escoamento, recebe o candidato em evento na área central. A sequência — indústria cooperada, varejo popular, hub regional — revela a tentativa de costurar um discurso único que dialogue com diferentes elos da cadeia produtiva.

  • Manhã: Cooperativa de laticínios (base produtiva/exportação);
  • Meio-dia: Mercado Municipal (varejo/consumidor final);
  • Tarde: Teófilo Otoni (logística/polo regional).

O que observar nos próximos passos da campanha

A proposta de “orientação antes de multa” tende a reverberar forte nas entidades de classe, como a FAEMG e sindicatos rurais, que historicamente cobram desburocratização. O desafio do candidato será detalhar o custo operacional dessa fiscalização educativa: exige mais servidores, mais tecnologia e capacitação contínua dos auditores fiscais.

Para o eleitor do agronegócio, a sinalização é clara: a intenção é reduzir a insegurança jurídica. Para o eleitor urbano, a promessa de um Estado “menos carrasco” ecoa como eficiência na gestão pública. A conferir como os adversários vão reagir a essa pauta — se abraçam a bandeira da desburocratização ou alertam para riscos de flexibilização sanitária e ambiental.

O termômetro real estará nas próximas sabatinas e nos planos de governo registrados no TSE. A promessa de mudar a cultura da fiscalização é atraente, mas a execução dependerá de maioria legislativa e caixa estadual. Até lá, o interior mineiro segue atento a quem de fato fala a língua do produtor.