Grandes bancos projetam um salto de quase 1 milhão de barris por dia na produção venezuelana até 2030, e o efeito cascata já chega à Bolsa brasileira. A Halliburton acaba de fechar parceria com a Eneva para explorar o país, sinalizando que o veto ao capital privado está caindo. Mas a verdadeira oportunidade pode estar onde poucos olham.
Analistas de uma das maiores instituições financeiras globais revisaram suas projeções para a Venezuela. O cenário-base aponta para 1,9 milhão de barris diários em 2030, subindo para 2,3 milhões em 2035. Para colocar em perspectiva: isso representa quase o dobro da extração atual, recolocando o país no radar das maiores petroleiras do mundo.
O gatilho imediato para a Bolsa brasileira
O movimento ganhou contorno concreto nesta segunda-feira (21). A Halliburton, gigante de serviços de petróleo, assinou memorandos com a Eneva (ENEV3) e a WESCA para desenvolver projetos na região. O Bradesco BBI vê o sinal como prova da “crescente atratividade” do vizinho e cita a Petrobras (PETR3; PETR4) como outra candidata natural a buscar ativos por lá.
Não é apenas exploração. A nova Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, prevista para 2026, derrubou o custo de equilíbrio (breakeven) do barril para cerca de US$ 58. Isso coloca a Venezuela no segundo quartil mais barato do planeta para produzir, abaixo da média global. No gás, o custo cai para US$ 3,8 por milhão de BTU, também competitivo.
Quem são os “donos” dessa expansão
O relatório do Goldman Sachs mapeou os principais beneficiários diretos do lado da operação. A lista revela onde o capital grosso está sendo alocado:
- Chevron: Planeja saltar de 280 mil para 600 mil barris/dia até 2031, com US$ 7 bilhões em investimentos.
- Eni: Assumiu o campo Junin-5 (35 bilhões de barris certificados) com licença de 25 anos.
- Repsol: Meta de triplicar a produção até 2028.
- GeoPark: Visa 90 mil barris/dia no bloco Bare até 2038.
No gás, Shell e BP (projetos Dragon e Loran) devem adicionar o equivalente a 140 mil barris/dia até o início da próxima década, alimentando a planta de GNL em Trinidad e Tobago.
Onde o valor real é criado para o acionista
Em termos de Valor Presente Líquido (VPL), a conta dos analistas favorece quem já tem pé na porta. A Chevron lidera com US$ 6,4 bilhões em valor estimado apenas nos ativos venezuelanos. A Eni aparece com US$ 4,8 bilhões e a Repsol com US$ 1,9 bilhão. Shell e BP somam potenciais de US$ 300 milhões e US$ 100 milhões, respectivamente, condicionados à decisão final de investimento nos projetos de gás.
Mas há um segundo andar nessa tese — e ele beneficia fornecedores. A demanda por tubos especiais (OCTG), essenciais para o petróleo pesado da Faixa do Orinoco, pode saltar para algo entre 140 mil e 240 mil toneladas anuais até 2030. Isso abre um mercado de US$ 600 milhões a US$ 1 bilhão por ano para fabricantes como Tenaris e Vallourec, que dominam o segmento de alto valor agregado.
O que observar daqui para frente
A reabertura venezuelana deixou de ser especulação geopolítica para virar modelagem financeira com datas e cifras. O investidor deve monitorar dois vetores: a execução dos investimentos prometidos pelas majors (Chevron e Eni ditam o ritmo) e a estabilidade do novo marco regulatório. Se a lei de 2026 confirmar a segurança jurídica, a cadeia de serviços — do Brasil à Argentina — entra em um ciclo de encomendas que não se via há uma década. O próximo trimestre dirá se os memorandos viram contratos assinados.
