Um relatório reservado da Abin entregue ao Planalto, ao TSE e ao Ministério da Justiça em agosto classifica como “crítico” o risco de influência americana nas eleições brasileiras de 2026. O documento aponta para uma escalada sistemática de pressão enquanto Lula e Trump se preparam para dividir o palco na ONU na terça-feira.
A inteligência brasileira vincula a ofensiva à estratégia de reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina, prioridade do segundo mandato Trump. O alvo: afastar rivais como a China de ativos estratégicos e riquezas naturais na região. Mas a artilharia pesada não é apenas diplomática — ela bate direto no bolso do exportador.
O tarifaço que não parou na Suprema Corte
A guerra comercial tem data para começar: abril de 2025. Tarifa linear de 10% sobre exportações brasileiras. Em julho, o tom muda. Trump assina Ordem Executiva declarando o Brasil “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional” e eleva a alíquota para 50%. As justificativas? Decisões do STF sobre redes sociais (Rumble e X) e a condenação de Jair Bolsonaro.
Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA derruba as tarifas globais de Trump por inconstitucionalidade — violaram a “doutrina das grandes questões” e o poder do Congresso. Bilhões foram devolvidos. A vitória jurídica, porém, não blindou o Brasil.
- 22 de julho: Sobretaxa de 25% atinge 19% das exportações (acusações de “práticas desleais”: PIX, regulação digital, desmatamento).
- Dias depois: Mais 12,5% por suposta falha no combate a trabalho forçado — rebatida pelo Itamaraty como “arbitrária”.
- Cenário atual: Produtos brasileiros chegam a pagar 37,5% de tarifa combinada.
Armas jurídicas e o tabuleiro político
O arsenal foi além do comércio. A Lei Magnitsky — instrumento de sanções individuais — mirou o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa (retirados da lista em dezembro de 2025). Vistos de outros seis ministros do STF foram cancelados. Paralelamente, Eduardo Bolsonaro, já nos EUA alegando perseguição, celebrou as medidas e admitiu atuação junto a autoridades americanas. Foi condenado pelo STF em junho de 2026 e perdeu o mandato por ausência.
Em maio, o Departamento de Estado classificou Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas. O governo brasileiro temeu abertura para ação militar ou sanções setoriais severas. Especialistas, contudo, alertam: a designação pode, na prática, atenuar penas para crimes de narcotráfico e lavagem de dinheiro nos EUA.
O paradoxo Lula-Trump: química pessoal, choque estrutural
“Eu me dou muito bem com o Trump”, repete Lula. A “química” nasceu em setembro de 2025, na ONU. Seguiu-se encontro em Kuala Lumpur (outubro), reunião de três horas em Washington (maio/2026) e ao menos quatro ligações — a última, de 1h20, em agosto, iniciativa de Brasília para retomar negociações comerciais e discutir conflitos globais.
Em Washington, Lula levou dados: os EUA têm superávit comercial com o Brasil. Acertou mesa de negociação técnica. Dias depois, porém, saía a designação terrorista das facções. Em junho, Lula chamou nova ameaça tarifária de “coisa desaforada” durante negociações.
O que observar daqui para frente
Terça-feira (22), na 81ª Assembleia Geral da ONU, Lula abre o Debate Geral; Trump fala na sequência. Não há bilateral agendado. O silêncio na agenda oficial fala mais que discursos: a relação entrou em zona cinzenta onde gestos pessoais não desarmam instrumentos de Estado.
Três variáveis definem o próximo trimestre:
- Andamento da mesa técnica comercial — única via para reverter tarifas setoriais;
- Desdobramento do relatório da Abin no TSE — protocolos de defesa cibernética e contra desinformação;
- Posicionamento do Congresso americano sobre a doutrina das grandes questões — pode limitar novas Ordens Executivas unilaterais.
Para o empresário exposto ao mercado americano: o risco país subiu. Contratos de longo prazo precisam de cláusulas de revisão por tarifa súbita. Para o investidor: volatilidade cambial e de commodities deve persistir até que a arquitetura institucional dos dois lados trave — ou rompa — as regras do jogo.
