Vivemos em uma cultura que trata o luto como um erro de percurso, um “bug” a ser corrigido o mais rápido possível para que a engrenagem da produtividade não pare. Mas a conta desse atropelo chega — e costuma ser cobrada em saúde mental, afastamentos e rupturas familiares.
A escritora e pesquisadora Júlia Jalbut, autora de “Uma casa que não pode cair” (2023) e do recém-lançado “Navegando o luto infantil” (2026), passou 12 anos acompanhando o adoecimento dos pais. A experiência a levou a uma constatação incômoda: não nos falta apenas tempo, nos falta letramento emocional para entender que o luto não é um problema a ser resolvido, mas um processo a ser integrado.
O luto não tem deadline (e seu cérebro sabe disso)
Quando a avó de Júlia morreu, ela achava estranho que a mãe continuasse triste meses depois. “Eu via um problema a ser encerrado”, diz. Anos depois, ao perder os próprios pais, entendeu a falha: o luto é a continuação de um vínculo. Se o amor não acaba na morte, a dor de sua ausência também não tem data de validade.
Para o profissional de alta performance, isso é contraintuitivo. Estamos treinados para entregar, fechar, escalar. O luto exige o oposto: permanência, repetição, ausência de resultado imediato.
O palco das redes sociais: validação ou fuga?
Júlia aponta um paradoxo digital. As redes deram visibilidade a dores antes silenciadas — o que valida e reduz a solidão, um dos maiores agravantes do luto. Porém, há um risco: performar a dor antes de senti-la.
- O lado bom: Comunidades de apoio, informação acessível, sensação de “não estou sozinho”.
- O lado perigoso: Externalização precoce que impede a digestão interna; distração constante que rouba o silêncio necessário para a elaboração.
Ela mesma só falou publicamente sobre o processo depois que os pais morreram. O tempo de “cavar fundo” foi preservado offline.
Crianças não são “pequenos adultos” — e isso muda tudo
O grande nó do novo livro é o luto infantil. A criança não tem a compreensão cognitiva da morte; ela a constrói aos poucos, perguntando a mesma coisa dez vezes. O adulto ansioso por “resolver” cala a criança ou inventa eufemismos (“dormiu”, “virou estrela”).
Isso não protege. Isola. A criança fica sozinha com uma fantasia muitas vezes mais assustadora que a realidade. A solução não é uma “aula de morte”, mas trazer os ciclos da vida — o feijão que nasce, cresce e seca — para o cotidiano, desde cedo.
A armadilha da “crononormatividade” e a conta para o SUS
Júlia usa o termo “sociedade crononormativa”: a ideia de que existe um tempo certo para tudo, inclusive para “superar”. Em um país desigual, isso é cruel. Quem trabalha em três empregos não tem “espaço para sentir”. O luto vira adoecimento crônico, absenteísmo, custo previdenciário.
Por isso, ela defende: luto é questão de saúde pública. Não basta licença de 2 ou 5 dias (quando existe). É preciso rede de apoio real — escola, vizinhança, tios, equipes de saúde — para que o cuidador principal possa, enfim, cuidar de si.
O que observar daqui para frente
A tendência é que o debate migre do “autocuidado individual” para “cultura do cuidado coletivo”. Empresas que ignoram isso perdem talentos para burnout silencioso. Líderes que não sabem acolher uma perda na equipe geram desengajamento que nenhuma bonificação resolve.
O próximo passo prático? Parar de perguntar “quanto tempo vai durar?” e começar a perguntar “do que você precisa hoje?”. A resposta não virá em relatório de métricas, mas na retenção de quem se sente visto — mesmo (e especialmente) quando a vida para.
