Internacional

Alerta da Abin: EUA vão interferir na eleição? O fim da trégua…

Relatório da Abin alerta risco crítico de interferência dos EUA na eleição brasileira de 2026
Documento sigiloso da Abin entregue ao Planalto e TSE aponta escalada de pressão política e econômica americana

Um relatório restrito da Abin entregue ao Planalto, ao TSE e ao Ministério da Justiça classifica como “crítico” o risco de interferência dos Estados Unidos no pleito brasileiro de 2026. O documento aponta para uma escalada deliberada de pressão política e econômica. Enquanto isso, Lula e Trump dividem o palco da ONU na terça-feira — sem reunião bilateral marcada.

A aparente cordialidade entre os presidentes esconde uma guerra comercial silenciosa que já custa caro ao exportador brasileiro. Entenda o que está em jogo nos bastidores.

O que diz o relatório que chegou à mesa de Lula

Elaborado no fim de agosto, o despacho da inteligência brasileira não deixa dúvidas: a “reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina” é prioridade estratégica da gestão Trump. O objetivo explícito seria afastar rivais — leia-se China — de ativos estratégicos e riquezas naturais na região.

O texto aponta “intensificação das ações” nos últimos meses. Não se trata apenas de retórica: medidas econômicas e políticas consideradas prejudiciais aos interesses nacionais já estão em curso.

A conta da “química” pessoal: tarifas que beiram 38%

Lula repete que “se dá muito bem com Trump”. A estreia desse rapport ocorreu na ONU em setembro de 2025. Dois meses depois, porém, a Casa Branca assinou uma Ordem Executiva classificando o Brasil como “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional”.

O resultado prático para o empresariado:

  • Abril/2025: Tarifa-base de 10% sobre exportações gerais.
  • Julho/2025: Salto para 50% (revogada depois pela Suprema Corte dos EUA).
  • Julho/2026: Sobretaxa de 25% atingindo 19% do exportado (alegação de “práticas desleais”: PIX, regulação de redes, desmatamento).
  • Dias depois: Mais 12,5% sob acusação de falha no combate a trabalho forçado — rebatida pelo Itamaraty como “arbitrária”.

Cenário atual: Parte dos produtos brasileiros paga até 37,5% para entrar no mercado americano.

Do Magnitsky ao “terrorismo”: a judicialização do atrito

A escalada saiu do comércio para o direito. Em 2025, a Lei Magnitsky foi usada para sancionar o ministro Alexandre de Moraes, sua esposa e cancelar vistos de outros seis ministros do STF. A medida bloqueia ativos nos EUA e veta transações com empresas americanas. Moraes saiu da lista em dezembro, mas o precedente permanece.

Em maio de 2026, novo golpe: Comando Vermelho e PCC foram designados “organizações terroristas” pelo Departamento de Estado. O governo brasileiro lutou meses contra o rótulo, temendo abertura para sanções setoriais severas ou até ação militar. Especialistas alertam: a classificação pode, paradoxalmente, atenuar penas por crimes financeiros ligados às facções.

O incidente diplomático que ninguém explica

Em 4 de agosto, os EUA revogaram o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti. A justificativa: demora na aprovação do embaixador indicado por Trump. Brasília chamou a medida de “falsa” e acusou Washington de violar a Convenção de Viena ao tornar o nome público antes da anuência brasileira. O impasse persiste sem solução à vista.

Três horas de reunião, zero acordos anunciados

O último encontro presencial, em maio em Washington, durou mais de três horas. Lula levou dados provando superávit comercial dos EUA e negou “práticas desleais”. Acertou-se uma mesa de negociação técnica. Dias depois, as facções viraram “terroristas” e as tarifas subiram.

Desde então, houve ao menos quatro telefonemas. O mais longo — 1h20min, em agosto — partiu de Lula para tentar destravar o comércio. O resultado prático até agora: nenhuma sinalização de redução de barreiras.

O que observar daqui para frente

A Assembleia Geral da ONU desta terça-feira (22) é o próximo checkpoint. Lula abre o debate; Trump fala na sequência. A ausência de bilateral agendado sinaliza que a desconfiança mútua supera a retórica de amizade.

Para o setor privado, três variáveis mandam no curto prazo: a disposição do Congresso americano em frear tarifas unilaterais (como fez a Suprema Corte em fevereiro), o desenrolar da “mesa técnica” bilateral e, claro, o calendário eleitoral brasileiro. O relatório da Abin não prevê recuo da pressão — projeta intensificação. Quem exporta ou capta nos EUA deve precificar esse risco no planejamento de 2026.