Guilherme Amorim transformou a história de Cubatão em roupa. Na terça-feira (15), sua marca ocupou o Complexo Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, com uma coleção inteira costurada a partir do romance “Zanzalá”, escrito em 1928 por Afonso Schmidt. O resultado não é apenas moda autoral — é um arquivo vestível.
O livro imagina a cidade cem anos no futuro. Um casal habita uma metrópole distópica erguida onde hoje fica o município. Doença terminal, tecnologia, busca por cura. Amorim leu e viu passarelas.
Dois pássaros, dois tempos
A coleção gira em torno de dois símbolos alados. O guará-vermelho, ave oficial do município, surge em estampas e silhuetas que evocam leveza. O “pássaro-socó” carrega peso maior: remete ao incêndio da Vila Socó, tragédia de 1984 que matou dezenas e marcou a memória coletiva.
“Quis contextualizar esse momento histórico. Foi uma tragédia, mas serve para as pessoas pesquisarem e saberem da história da cidade”, explicou o estilista. A escolha não é decorativa — é convite à investigação.
De Estação das Artes à Casa de Criadores
A trajetória de Amorim desenha um percurso raro no cenário nacional:
- Adolescência: aprendeu a desenhar nos cursos da Estação das Artes, equipamento público de Cubatão
- Formação: cursou Design de Moda e migrou para São Paulo
- Marca própria: comanda label há aproximadamente dez anos
- Casa de Criadores: mais de dez desfiles no principal evento de moda autoral do país
- Visibilidade pop: vestiu Anitta, Ludmilla, Marina Sena e Luísa Sonza em clipes e apresentações
O salto de equipamento cultural municipal para palco nacional não foi linear. Amorim credita a base técnica aos primeiros contatos com o desenho na cidade natal — estrutura que, segundo ele, ainda falta a muitos jovens da região.
Moda como ferramenta de narrativa local
A homenagem nasceu de “vontade antiga de prestigiar a cidade e contar parte de sua história”. O estilista conecta o momento à revitalização pela qual Cubatão passa e ao desejo de provar que origem não determina destino.
“Eu sempre quis trazer essa visão de uma pessoa que não tinha oportunidades para fazer o que eu faço hoje […] e que também é possível. Mesmo morando ali em Cubatão, você poder sonhar, como eu sonhei, de trabalhar com moda”, afirmou.
O discurso encontra eco em dados do setor: a moda autoral brasileira cresceu 18% em faturamento nos últimos três anos, segundo relatório da Abest, mas a concentração geográfica segue acentuada no eixo Rio-São Paulo. Casos como o de Amorim permanecem exceção.
O que observar daqui pra frente
A coleção “Zanzalá” entra em produção comercial nos próximos meses. A marca pretende lançar peças-chave em edição limitada, com parte da renda destinada a projetos de formação artística na Baixada Santista. O calendário prevê nova apresentação na Casa de Criadores no segundo semestre.
Para quem acompanha o mercado, o caso sinaliza duas tendências: o fortalecimento de narrativas hiperlocais como diferencial competitivo e a aproximação entre moda autoral e políticas públicas de base cultural. Se o modelo se replicar, cidades médias ganham nova rota de inserção na economia criativa nacional.
