Economia

Saneamento: R$ 66 bi em leilões à vista, mas o “filé” já foi servido

Gráfico mostrando investimentos em leilões de saneamento no Brasil, com R$ 66 bilhões previstos
Novos leilões de saneamento somam R$ 66 bi, mas os ativos mais atrativos já foram concedidos.

O setor de saneamento brasileiro prepara 31 novos leilões que somam R$ 66,3 bilhões em investimentos previstos, mas a fatia mais suculenta do mercado já mudou de mãos. É o que revela levantamento da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento) obtido com exclusividade.

A conta não fecha no papel: o volume a ser ofertado agora é inferior ao já contratado desde 2020. A dúvida que fica é se o apetite dos grandes operadores — hoje com capacidade de execução no limite — vai sustentar a próxima onda de certames.

O mapa dos 31 projetos que faltam

Dos certames mapeados, sete são regionais e abrangem 631 municípios. O destaque é o Universaliza SP, com 146 cidades e 7,8 milhões de pessoas, previsto para o segundo semestre de 2026. Na outra ponta, 24 leilões são municipais isolados.

  • Rondônia: 40 municípios, 1,2 milhão de pessoas — edital publicado, leilão em 29/09
  • PPP Goiás (Saneago): 216 municípios, 3,4 milhões — reconfiguração em curso, mira 1º semestre de 2027
  • PPP Rio Grande do Norte: 48 municípios, 1,8 milhão — estudos técnicos, previsão 2027
  • PPP Ceará (Cagece): 104 municípios, 1,2 milhão — 4 de 5 blocos vazios, novo edital ainda em 2025
  • Bloco D Alagoas: 21 municípios, 550 mil — 2027/2028
  • Espírito Santo: 32 municípios, 1,1 milhão — 2028

O relógio corre contra a meta legal: até dezembro de 2033, o país precisa atingir 99% de cobertura de água tratada e 90% de coleta e tratamento de esgoto.

Por que os grandes players podem não aparecer

Fernando Vernalha, advogado especializado em infraestrutura, resume o cenário: “O filé mignon já foi licitado. Os grandes operadores adjudicaram contratos massivos e estão com a capacidade absorvida”.

Na prática, Sabesp, Copasa e outros blocos regionais já consumiram o fôlego financeiro e operacional dos principais grupos. O resultado aparece nos certames recentes: a Saneago cancelou o leilão de março após o único proponente ser desabilitado; a Cagece vendeu apenas 1 de 5 blocos ofertados.

A engenharia por trás dos insucessos

Luís Felipe Valerim, também advogado do setor, aponta para a estrutura de risco das PPPs de esgoto: “A matriz de risco e a viabilidade precisam ser ajustadas. Já tivemos outras licitações com baixa competição”.

No caso goiano, a Saneago admite revisão profunda: atualização de Capex e Opex, impactos da reforma tributária, custo de capital e gestão comercial. O projeto só volta ao mercado após aval do TCE-GO, audiências públicas e governança interna.

Já a Cagece aguarda análise do TCE-CE para relançar os quatro blocos desertos. A expectativa oficial é ainda para 2025, mas o calendário depende de ajustes no modelo.

O que o BNDES tem na manga

Estruturador de 20 leilões desde 2020, o banco mantém sete projetos em carteira. O maior é a concessão do Maranhão: R$ 18,7 bilhões, ainda sem data. Rondônia (R$ 4,22 bi) tem edital publicado. Porto Alegre (R$ 2,87 bi), Rio Grande do Norte (R$ 3,9 bi) e Espírito Santo (R$ 4,5 bi) estão em estudos.

A diversidade de modelos — concessões plenas, parciais e PPPs — mostra que não há receita única. Cada estado adapta a estrutura à sua realidade fiscal e operacional.

O fator político que ninguém controla

Renata Villela, do Cascione Advogados, nota que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro incluem saneamento em seus programas de governo. “Parece haver importância, mas não noto previsão objetiva de metas. É mais diretriz que plano de ação”, avalia.

A execução, de todo modo, passa pelos governadores e prefeitos. A União pode financiar e regular, mas a concessão é ato local.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos 18 meses: a capacidade de os editais equilibrarem risco-retorno nas PPPs de esgoto; a disposição de fundos de infraestrutura e players médios em preencher o vácuo deixado pelos gigantes; e a velocidade dos tribunais de contas em liberar os certames reestruturados.

O leilão de Rondônia, em setembro, será o primeiro termômetro real. Se atrair competição, sinaliza que o mercado ainda tem apetite para o que resta. Se não, o setor entra 2026 com a conta do Marco Legal cada vez mais difícil de fechar.